Filosofia: Conceito e definições.

– Sentido amplo: imposição no processo de socialização e incorporação passiva da ideologia dominante.

– Sentido estrito: estudo sistemático e metódico sobre a totalidade do que existe. Ciência do ser. Conhecimento fundamentado, sistemático e metódico, sobre a finalidade última de tudo o que existe. Problema do Ser. Problema do Conhecimento. Problema do Valor.

– Etimologia: Philos (amigo) +  Sophia (saber, sabedoria): Pitágoras de Samos (Sec. V aC). Os pensadores pré-socráticos (físicos) e a preocupação com o fundamento do ser. O Conceito de Phisis (natureza, realidade dinâmica). O átomo ou o Logus?

– A relação da definição com a linha de pensamento.

– Referência/posicionamento ante uma perspectiva telológica do cosmos: a) especulativa: a filosofia como uma projeção racional; b) normativa: toda filosofia resulta em normas e prescrições para a vida prática; c)  crítica: a Filosofia representa sempre uma nova postura ante a vida e o mundo.

– Busca de conhecimento e não posse: a) questionamento: a colocação permanente de novas questões é mais importante que as respostas absolutas; b) perenidade: pela sua natureza vai existir sempre, onde o homem se apresente como tal; c) abrangência: o enfoque da Filosofia é sempre o da totalidade, do ser; d) radicalidade: a Filosofia busca resposta que estão na raiz dos problemas.

Algumas definições:

 “Todos os homens são filósofos, enquanto pensam (…), enquanto refletem sobre a cultura, a linguagem e o mundo que receberam ao nascer (…) assumindo-o não de maneira pronta e passiva, mas de maneira crítica e responsável. Antônio Gramsci (marxista crítico).

“Filosofia é a ciência das causas primeiras e fins últimos”.  S. Tomás de Aquino (filósofo cristão)

Filosofia é o ato de concentração pelo qual o homem se torna autenticamente aquilo que é e participa da realidade”. Karl Jaspers (existencialista cristão)

“Filosofia é o estudo de tudo o que não pode ser pesquisado cientificamente. ”Bertrand Russel (positivista inglês).

Explicação:

O estudo de Lógica nos mostra uma importante distinção entre “conceito” e “definição”. O conceito é a ideia, logo, é amplo e inteiramente subjetivo, enquanto que a definição é uma tentativa tornar mais objetiva a ideia, logo, é restrita às características essenciais do objeto que pretende definir. Eu tenho uma ideia do que seja educação e pretendo explicar isso para outra pessoa, e para isso formulo a minha definição de “educação”. Evidentemente, eu não conseguirei descrever todas as características da minha concepção de “educação” e por isso começarei pelas que acredito mais importantes. Eu digo, por exemplo, que a educação é o processo de formação do cidadão em sociedade. Ou seja, eu defini “educação” pelos aspectos “formação para a cidadania” e “processo social de formação” porque, no meu entendimento, esse é o cerne do processo educativo. Deixei em segundo plano o aspecto “instrução”, que para outro definidor seria o mais importante.

Situação similar passa-se com relação ao conceito de Filosofia. Quando um filósofo define a Filosofia ele precisará arrolar os aspectos e características que ELE considera os mais importantes. Vejamos nas definições acima: Gramsci, como pensador marxista, define a Filosofia pelo aspecto político, como pensamento crítico capaz de levar o homem ao participar de sua realidade. Santo Tomás de Aquino, como filósofo cristão e idealista, define a Filosofia pelo seu papel metafísico, de busca de conhecimento sobre o sentido último do homem no mundo. Jaspers, como filósofo existencialista, define a Filosofia como o pensar que leva o homem a uma existência autêntica. Russel, como um pensador positivista, vê a Filosofia pelo seu papel de teoria geral da ciência, como a ciência que unifica as descobertas das ciências particulares na construção de uma teria geral do ser.

Agora começamos a entender a singularidade desse estudo chamado Filosofia e podemos começar a ensaiar uma forma útil de definir entender um pouco da natureza dessa forma de interpretação da realidade. Aqui cabe resgatar a etimologia da palavra “Filosofia” e as condições em que esse termo foi usado pela primeira vez.

O registro mais antigo da palavra Filosofia seria o de seu uso por Pitágoras de Samos quando, em visita a corte de um rei, foi questionado em que seria ele um sábio. Pitágoras teria respondido que não seria um sábio (aquele que sabe), mas sim um filósofo (aquele que ama o saber). Cerca de 2.500 anos se passaram e a Filosofia continua sendo uma busca permanente e contínua de conhecimento sobre tudo o que existe, não pela utilidade prática desse conhecimento, mas sim pelo que ele significa para o homem em termos da sua própria humanização.

Por outro lado, precisamos de uma definição operacional para direcionar nosso curso. Em sendo assim, cabe apresentar uma definição lógica, que arrole suas características essenciais e distintivas de outras formas de interpretação da realidade, seu objeto de estudo e seu método de estudo. Assim, iniciaremos nossos estudos com a seguinte definição operacional:

A Filosofia é uma busca permanente de conhecimento, abrangente e radical, sobre o sentido de tudo o que existe (o ser), pelo método reflexivo-crítico.

A Filosofia é uma busca de conhecimento, uma forma de interpretação da realidade, tal como o são as ciências ou a religião, porém, enquanto as ciências recortam trechos da realidade para estudar (classes de fenômenos), a Filosofia, tal como o faz a religião, dedica-se ao todo, ao conjunto e a todas as classes de fenômenos, enfim, ao ser (palavra que designa tudo aquilo que é, que existe, ou seja, tudo). A Filosofia estuda o todo sem qualquer limite ou restrição, e por isso se diz que é um estudo abrangente e radical. É uma busca permanente porque as questões filosóficas, por sua natureza, não comportam respostas definitivas. Tampouco é da natureza a aceitação de respostas definitivas, e por isso se diz que a crítica perene é da essência do saber filosófico, que é permanentemente provisório.

Enfim, se trata de uma busca de conhecimento sobre a realidade como um todo, sob uma perspectiva radicalmente crítica, para a qual não cabe a aplicação de uma metodologia demonstrativa e/ou experimental, que, diante desse objeto e perspectiva, se mostra inteiramente inviável. Entretanto, isso não significa que a Filosofia não utilize um método, apenas que seu método é diferente dos métodos utilizados pelas ciências particulares.

O método da Filosofia é a especulação crítica ou método reflexivo-crítico.

O que significa isso?

Especular é projetar mentalmente e discursivamente o desdobramento de uma situação, e a crítica é o crivo da coerência lógica dessa especulação. Refletir e voltar o pensamento sobre os próprios processos de pensar, analisando criteriosamente esses processos em interação com as situações sociais de sua construção, aplicando-se o crivo da crítica como critério de verdade do discurso.

Resulta disso que a Filosofia pode apresentar variadas respostas a uma mesma questão, conforme a linha de pensamento que apresenta a resposta, como vemos no exemplo da definição de Filosofia, aparentemente distintas quando formuladas por um filósofo marxista, por um idealista cristão, ou por um existencialista.

Adiante temos textos de alguns filósofos que se debruçaram sobre a questão da natureza da Filosofia, da sua necessidade ou da sua utilidade. Vamos à leitura desses textos para tentar compreender como essas questões, quando colocadas em relação à Filosofia, se mostram bem diferentes.

Texto “A”: Para que serve a Filosofia (Excerto de DELEUZE, Giles – Nietezsche e a Filosofia, Ed. Rio, p.87.)

Quando alguém pergunta para quê serve a Filosofia,a resposta deve ser agressiva, visto que a pergunta pretende-se irônica e mordaz. A Filosofia não serve nem ao Estado, nem a Igreja, que tem outras preocupações. Não serve a nenhum poder estabelecido. A Filosofia serve para entristecer. Uma Filosofia que não entristece a ninguém e não contraria ninguém não é uma Filosofia (…). Não tem (a Filosofia) outra serventia a não ser denunciar a baixeza do pensamento sob todas as suas formas. Existe alguma disciplina, fora da Filosofia, que se proponha a criticar todas as mistificações, quaisquer que sejam a sua fonte e seu objetivo (…). Fazer do pensamento algo agressivo, ativo, afirmativo. Fazer homens livres (…), isto é, homens que não confundam os fins da cultura com o proveito do Estado, da moral ou da religião (…). Certamente existe uma mistificação propriamente filosófica, a imagem dogmá­tica do pensamento e a caricatura da crítica são testemunhos disso. Mas a mistificação começa a partir do momento em que esta renúncia ao seu papel desmistificador e faz o jogo dos poderes estabelecidos, quando renuncia a contrariar a tolice, a denunciar a baixeza (…).

É possível fazer essa pergunta porque a imagem do filósofo é constantemente obscurecida. Faz­-se dele um sábio, ele que é apenas o amigo da sabedoria, amigo num sentido ambíguo, isto é, o anti-sábio, aquele que deve mascarar-se com a sabedoria para sobreviver. Faz-se dele um amigo da verda­de, ele que faz o verdadeiro enfrentar a mais dura prova (…). Se a tarefa crítica da Filosofia não é ativa­mente retornada em cada época, a Filosofia morre e com ela a imagem do filósofo e a do homem livre (…). Diferentemente do conceito intemporal de erro, a baixeza não se separa do tempo, isto é, desta transposição do presente, dessa atualidade na qual se encarna e se move. Por isso a Filosofia tem uma relação essencial com o tempo: sempre contra o seu tempo. Crítico do mundo atual, o filósofo forma conceitos que não são eternos nem históricos, mas sim intempestivos e sem atualidade. E no intempes­tivo há verdades mais duráveis que as verdades históricas e eternas reunidas: as verdades do tempo por vir (…). Nem há Filosofia eterna, nem Filosofia histórica. A eternidade, assim com a historicidade da Filosofia, reduz-se ao seguinte: a Filosofia, sempre intempestiva, intempestiva a cada época. Mas assim concebida, qual é, pois, o campo que se oferece à Filosofia? A análise do que o ho­mem pensa de si próprio e do mundo. A Filosofia é uma concepção coerente, racional, do mundo e da vida.

Texto “B”: A Necessidade da Filosofia. (CARTOLANO, M. T. P. – Filosofia no Ensino de Grau, Cortez, 1985, p.97).

É como pensamento que a Filosofia é necessária e é como tal que percebemos como, porque e em que poderá ser teoria, fundamento e reformulação da prática. Se, por um lado, “conhecer é fixar o real em representações (fatos e idéias), em contrapartida, pensar é acolher o risco do trabalho do conhecimento sem pretender fixá-lo num racional positivo completamente determinado(Marilena Chauí).

A tarefa da Filosofia não consiste em construir verdades e sistemas acabados e absolutos, mas, ao contrário, em acompanhar reflexivamente os acontecimentos da realidade, questioná-los em seus fun­damentos e colocá-los como problemas provisórios a partir dos quais são buscadas soluções ou surgem novos problemas também provisórios.

A Filosofia é, nesse sentido, como dizia Gramsci, não só a descoberta de verdades originais, mas também a difusão crítica de outras, já descobertas, a sua socialização e transformação em bases de ações vitais. A filosofia é necessária­ como reflexão radical e como teoria crítica e não como filosofia dogmática, afirmativa, que se submete e serve aos interesses de uma determinada classe social. A filosofia é necessária enquanto negação do já estabelecido e afirmação de novos projetos para a sociedade; é necessária como reflexão a partir da experiência, da prática e dos problemas levantados por ela.

A Filosofia é necessária à medida que reflete criticamente sobre as con­dições pelas quais o homem produz a sua existência, quer dizer, sobre o seu trabalho, através do qual ele se constrói (ou se destrói e se aliena) e constrói a sociedade, sendo, nesse sentido, orientação inte­lectual para a compreensão do mundo, para a ação sobre o mundo. A Filosofia é o pensamento sobre a prática e entende o conhecimento não como apropriação de idéias, mas, como compreensão do sentido da experiência. É o conjunto dessa experiência humana que deve ser objeto da reflexão filosófica.

O filósofo Paulo Ghiraldelli Jr por ele mesmoO que é filosofia? (Short)

“O que é a filosofia?” em menos de 3 mil palavras

Da maneira como a desenvolvo, a filosofia tem uma dupla acepção. De um ponto de vista geral, ela é uma narrativa de desbanalização do banal. De um ponto de vista específico, ela é uma investigação que lida com os mecanismos que nos fazem tomar o aparente pelo real – se é que estamos envolvidos nesse problema.

Essa maneira de descrever o que faço como filósofo é o melhor modo que encontrei para colocar meu leitor, de modo rápido, inteirado a respeito do que é o meu cotidiano.

Tudo que vejo e que os outros também enxergam todos os dias se torna banal para nós. O trânsito não funciona na cidade de São Paulo e o prefeito diz que está tudo bem. Alguns reclamam. Mas a pressão do trabalho faz com que todos entrem no ônibus lotado e se submetam a condições desumanas para ir para o serviço. Eis que em determinado momento, ninguém reclama mais. Toma-se como banal que o trânsito não funcione. Ocorre aí a banalização de nossa própria vida. Então, é hora do filósofo mostrar uma cidade grande, em outro lugar, em outro país, onde o trânsito funciona – para desbanalizar o nosso banal, que é o trânsito não funcionando.

O filósofo é aquele que vê o que todos veem todos os dias, mas ele, diferente de outros, aponta para situações em que aquilo que é visto não é algo que deveria estar ali como está. Poderia não estar. Talvez devesse não estar como está.

Até aí, estou no âmbito da minha atividade de desbanalizador do banal. Caminho na função da filosofia, assumida de acordo com a acepção geral que dou a ela. Mas essa desbanalização do banal me conduz para à minha segunda acepção de filosofia.

Entro em casa, ligo a televisão e vejo o prefeito, de helicóptero, passeando por cima de São Paulo e afirmando que o trânsito em São Paulo não é tão ruim, que “sempre foi dessa maneira”, que São Paulo é muito grande e que com 22 milhões de pessoas aglomeradas “não poderia ser diferente”. Eis que está na sala um vizinho, e ele apóia o prefeito. Ele acredita que, de certo modo, o prefeito está certo. Como poderiam 22 milhões de pessoas aglomeradas, todo mundo de carro, não congestionar a cidade – impossível. O jeito de lidar com a coisa, então, é uma só: paciência – esta é a fórmula do prefeito e do meu vizinho. Bem, diante dessa conclusão do meu vizinho, minha atividade de desbanalização do banal caminha para o campo da minha segunda acepção de filosofia. Pois o que meu parente está fazendo é simplesmente parar de pensar e aceitar o discurso – ideológico – do prefeito.

O problema, então, não é o de convencer o meu vizinho de que o prefeito está usando de um discurso ideológico. O problema filosófico, neste caso, é mais complexo. O filósofo não é o que vai desideologizar o discurso do prefeito. O filósofo é o que vai investigar para entender quais os mecanismos (se é que existem) tornaram o vizinho capaz de tomar o aparente – o problema do trânsito não tem solução – pelo real – o problema do trânsito deve ter solução, uma vez que a racionalidade em outros lugares eliminou tal problema.  

© 2008 Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo. http://portal.filosofia.pro.br/o-que–filosofia-short.html. Acesso em 09.04.2011.

  1. Discuta criticamente as definições de Filosofia existentes nos textos.
  2. O que significa dizer que “a Filosofia não serve”?
  3. Para Marilena Chaui, qual a diferença entre pensar e conhecer?

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