{"id":605,"date":"2020-07-08T22:49:14","date_gmt":"2020-07-09T01:49:14","guid":{"rendered":"http:\/\/wilsoncarvalho.com.br\/?p=605"},"modified":"2020-07-11T15:47:39","modified_gmt":"2020-07-11T18:47:39","slug":"pedro-cabano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/wilsoncarvalho.com.br\/index.php\/2020\/07\/08\/pedro-cabano\/","title":{"rendered":"PEDRO CABANO"},"content":{"rendered":"\n<p><strong><a href=\"https:\/\/revistaphilos.com\/\">Philos<\/a><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A Revista das latinidades ISSN 2527-113X<\/p>\n\n\n\n<p>Desde 2015, a Philos ISSN 2527-113X se consagra \u00e0 promo\u00e7\u00e3o da diversidade<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/revistaphilos.com\/category\/literatura-portuguesa\/\">LITERATURA PORTUGUESA<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/revistaphilos.com\/2017\/01\/30\/pedro-cabano-por-joao-wilson-savino-carvalho\/\">30 DE JANEIRO DE 2017<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Pedro Cabano, por Jo\u00e3o Wilson Savino Carvalho<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Pedro era jovem, adolescente mesmo, e isso talvez explicasse a imensa curiosidade que tinha sobre o movimento cabano, chegando mesmo pr\u00f3ximo de ter, pelos sanguin\u00e1rios revoltosos, o que se poderia classificar como uma inexplic\u00e1vel admira\u00e7\u00e3o. Ademais disso, a vida em sua cidade natal, \u00e0s margens do rio Mutuac\u00e1, era o pr\u00f3prio retrato do t\u00e9dio.<br>N\u00e3o que Nova Mazagran, ou simplesmente Mazag\u00e3o, fosse uma cidade sem perspectivas de trabalho para um jovem como ele. Na verdade, era at\u00e9 uma vila amaz\u00f4nica bem pr\u00f3spera, e a sua produ\u00e7\u00e3o de frutas e legumes j\u00e1 at\u00e9 abastecia os mercados de cidades como Bel\u00e9m e Vigia.<br>Mas o fato \u00e9 que o avan\u00e7o desse movimento do come\u00e7o do s\u00e9culo XIX estava inquietando todo mundo da cidade, pois j\u00e1 havia dominado Bel\u00e9m, a capital da prov\u00edncia, e Santar\u00e9m, a cidade mais importante. E agora amea\u00e7ava toda a regi\u00e3o das ilhas da foz do rio Amazonas, de onde provavelmente partiriam para dominar Macap\u00e1 e depois a tranquila Mazag\u00e3o.<br>S\u00f3 que, diferentemente das outras cidades da prov\u00edncia, Macap\u00e1 e Mazag\u00e3o eram cidades formadas por pessoas vindas de col\u00f4nias portuguesas. Por isso, mesmo ap\u00f3s a independ\u00eancia do Brasil, tinham mais proximidade com o governo imperial brasileiro, cujos membros faziam parte da dinastia portuguesa, do que com a popula\u00e7\u00e3o de tapuias que mal sabia falar o portugu\u00eas e, em uma inexplic\u00e1vel revolta, tentava dominar completamente a prov\u00edncia, confrontando-se com a unidade nacional brasileira.<br>Pedro sabia de tudo isso porque gostava de ouvir. E ouvia muito, principalmente quando percebia aquela intrigante admira\u00e7\u00e3o pelas conquistas cabanas na fala de alguns intelectuais mazaganenses. Mas admira\u00e7\u00e3o mesmo tinha pelo padre, que tudo explicava usando palavras simples e ao alcance de Pedro. E, por conta disso, sentia muito medo do que poderia acontecer com os dirigentes da cidade, caso fosse dominada pelos cabanos, embora fosse ele pr\u00f3prio, em apar\u00eancia f\u00edsica e sentimentos, um perfeito tapuia, tal como os demais moradores.<br>Mas agora se sentia muito orgulhoso: fora chamado pelo Padre para remar pra ele, que desejava conhecer o tal esconderijo de cabanos, totalmente destru\u00eddo por um destacamento de soldados do governo da prov\u00edncia. Tinham vindo de Macap\u00e1, especialmente para atacar os cabanos, e retornaram sem dar qualquer satisfa\u00e7\u00e3o \u00e0s autoridades de Mazag\u00e3o. O padre era radicalmente contra a Cabanagem, mas, como cat\u00f3lico, n\u00e3o podia permanecer insens\u00edvel aos rumores de um in\u00fatil massacre.<br>Pedro remava com desenvoltura e vigor, tal como os outros jovens que o Padre tinha arregimentado para a empreitada de subir o rio at\u00e9 o local do combate. Mas, quando avistou o que teria sido o resultado do ataque das for\u00e7as imperiais a uma base dos cabanos, automaticamente diminuiu o ritmo. Seu cora\u00e7\u00e3o apertou de pronto. Havia cad\u00e1veres espalhados, de homens, mulheres e crian\u00e7as, com uma nuvem de urubus disputando seus restos. Nenhum deles usava uniforme. Pelos fartos cabelos, dava para concluir que eram todos tapuias. E pelos objetos que ainda se podia ver no que sobrou da pequena vila, eram moradores e n\u00e3o ocupantes militares.<br>Parecia bastante claro o que tinha acontecido ali: um mero massacre de uma vila de tapuias, movido pelo \u00f3dio e desprezo pela vida daqueles que o governo da prov\u00edncia via como seres apenas quase humanos, mas sanguin\u00e1rios e desprez\u00edveis. O pr\u00f3prio padre, que costumava se referir aos tapuias como \u201cburros, porcos e pregui\u00e7osos\u201d, agora parecia n\u00e3o conseguir conter as l\u00e1grimas.<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u2013 Pra que tudo isso? Eram todos pescadores\u2026 Nem sequer tinham armas para serem confundidos com cabanos\u2026 Por que os soldados fizeram isso? Quem autorizou tamanha monstruosidade?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>O retorno foi silencioso e triste, e a chegada \u00e0 cidade, conflituosa e preocupante. Parecia que as autoridades locais j\u00e1 sabiam, e temiam o posicionamento que o padre tomaria a respeito. Estavam preparados com argumentos e autoridades, n\u00e3o s\u00f3 imperial, mas tamb\u00e9m eclesi\u00e1stica.<br>Como era de se esperar, o padre foi escorra\u00e7ado da discuss\u00e3o e Pedro apontado como o elemento dos cabanos dentro da cidade. Embora dominasse a l\u00edngua culta muito bem e fosse conhecido pela sua capacidade de argumenta\u00e7\u00e3o, Pedro tinha caracter\u00edsticas f\u00edsicas de tapuia e, pior, trazia algo do temperamento desse povo.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, n\u00e3o foi de todo estranho que, diante das absurdas acusa\u00e7\u00f5es de pertencer ao movimento cabano, Pedro tenha quedado quieto, calado, apenas mirando as autoridades mazaganenses com aquele olhar insond\u00e1vel, pr\u00f3prio de sua etnia. Parecia que seu destino estava selado.<br>Mas o padre n\u00e3o se acovardou e partiu para o contra-ataque. Foi \u00e0 resid\u00eancia sacerdotal e voltou com as vestes eclesi\u00e1sticas de gala e com todos os paramentos que p\u00f4de colocar. \u00c0 frente de um s\u00e9quito de beatas e coroinhas, enfrentou os militares, que ent\u00e3o n\u00e3o mais se atreveram a tocar nele. O debate, entretanto, havia mudado completamente de rumo. Agora j\u00e1 n\u00e3o se discutia o absurdo massacre da vila de tapuias, mas sim a vida de Pedro.<br>Arrebatado das m\u00e3os dos soldados por uma veneranda senhora de pele alva, olhos azuis e cabelos de algod\u00e3o, que no alto de sua autoridade de descendente de um nobre que lutou pelo rei de Portugal ainda na Mazagran africana, levou-o direto para a prote\u00e7\u00e3o da casa de sua fam\u00edlia, de onde ningu\u00e9m se atreveria a tir\u00e1-lo.<\/p>\n\n\n\n<p>Tratado como uma crian\u00e7a, Pedro acabou por dormir, enquanto o Padre, sozinho, acuado pelos militares, e abandonado pelos mais antigos moradores da cidade, era agora acusado de impedir a defesa da cidade ante o avan\u00e7o cabano. Para completar, chegaram a Mazag\u00e3o as not\u00edcias de mais um massacre promovido pelos cabanos, agora em sua passagem pela cidade de \u00d3bidos, onde n\u00e3o s\u00f3 as autoridades provinciais, como todos os moradores antigos, teriam sido arremessados, de m\u00e3os e p\u00e9s amarrados, do alto de um precip\u00edcio. Falava-se de muitas mortes cru\u00e9is, de estupros e saques, e toda sorte de barbaridades era atribu\u00edda aos revoltosos em f\u00faria sanguin\u00e1ria.<br>Pedro acordou antes do amanhecer, com a voz alterada da irm\u00e3 de sua salvadora:<br>\u2013 P<em>recisamos tirar esse menino daqui, urgente. O padre foi expulso de Mazag\u00e3o, e vai ser colocado a pulso no \u00faltimo barco que sai da cidade rumo a Gurup\u00e1, que ainda est\u00e1 nas m\u00e3os dos soldados da prov\u00edncia.<br>\u2013 Que \u00faltimo barco? Por que \u00e9 o \u00faltimo? Que est\u00e1 acontecendo?<\/em>&nbsp;Era sua salvadora que exigia maiores explica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u2013 Porque eles v\u00e3o derrubar \u00e1rvores dos dois lados da margem do rio para impedir qualquer possibilidade de os cabanos chegarem a Mazag\u00e3o de barco. Quando eles terminarem, ningu\u00e9m entra, ningu\u00e9m sai. E est\u00e3o dizendo que o padre amaldi\u00e7oou a cidade. Que Mazag\u00e3o vai se acabar aos poucos.<br>\u2013 Mas, se eles derrubarem mesmo as \u00e1rvores por sobre o rio pra formar uma barreira, o rio vai assorear, e a\u00ed Mazag\u00e3o s\u00f3 poder\u00e1 mesmo se acabar.<\/em>&nbsp;Pedro n\u00e3o podia deixar de intervir na conversa.<br><em>\u2013 Mana, esse menino tem que sair daqui. Veja, ele n\u00e3o fala como uma crian\u00e7a. Como \u00e9 que sabe dessas coisas?<\/em>&nbsp;<em>Ele \u00e9 muito esquisito. Melhor tir\u00e1-lo daqui, mand\u00e1-lo pra longe, porque logo eles vir\u00e3o busc\u00e1-lo, mesmo dentro da nossa casa.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>\u2013 \u00c9, se bloquearem o rio, ele tem que sair antes de o dia amanhecer. Chame o Gervaldo e diga pra ele pegar a canoa grande e levar esse menino para Gurup\u00e1!<\/em>&nbsp;E ent\u00e3o, dirigindo-se diretamente a Pedro:&nbsp;<em>V\u00e1 com o Gervaldo, que ele \u00e9 de confian\u00e7a! V\u00e1 para Gurup\u00e1 e d\u00ea um jeito de chegar a Bel\u00e9m, at\u00e9 l\u00e1 a sua hist\u00f3ria j\u00e1 ser\u00e1 conhecida e voc\u00ea poder\u00e1 at\u00e9 ser recebido como her\u00f3i!<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Hesitou um instante e depois come\u00e7ou de novo a falar, mas em tom bem mais suave:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013&nbsp;<em>Ah, Pedro, se os cabanos vierem tomar Mazag\u00e3o, lembre-se do que fizemos por voc\u00ea.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>\u2013 Lembrarei sim, Madrinha! Lembrarei sim! Sempre! A senhora \u00e9 uma pessoa muito boa!<\/em>&nbsp;Andou alguns passos em dire\u00e7\u00e3o a Gervaldo, mas parou de s\u00fabito.<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u2013 E o padre, Madrinha? O que vai ser dele? \u2013 N\u00e3o se preocupe com o padre! Ele sabe se defender. Vai ser levado a Gurup\u00e1 e l\u00e1 ser\u00e1 entregue ao Bispo. N\u00e3o vai acontecer nada a ele. Agora, com voc\u00ea, cuidado! Se for pego, com certeza n\u00e3o ter\u00e3o piedade.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Pedro chegou a Bel\u00e9m que, no ano seguinte, voltou ao dom\u00ednio das tropas imperiais e, cabano ou n\u00e3o, ningu\u00e9m mais ouviu falar dele. E nem mesmo do padre. E nem de Mazag\u00e3o. N\u00e3o se sabe se pela praga, se pelas doen\u00e7as ou pelo assoreamento do rio, mas a Nova Mazag\u00e3o, a reedi\u00e7\u00e3o da orgulhosa Mazagran africana que Portugal trouxe atrav\u00e9s do Atl\u00e2ntico para a sua col\u00f4nia no Novo Mundo, declinou tanto que mais uma nova Mazag\u00e3o se fez necess\u00e1ria. E para distinguir da Nova Mazag\u00e3o, esta foi chamada de Mazag\u00e3o Novo.<br>Anos se passaram, d\u00e9cadas, um s\u00e9culo e pouco. E mais uma ditadura se instalou no Brasil. E um dia, ap\u00f3s uma visita, sob um sol escaldante, \u00e0 cidade de Mazag\u00e3o Novo pelo severo governador militar do ent\u00e3o Territ\u00f3rio Federal do Amap\u00e1, disse-lhe o seu ordenan\u00e7a:<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u2013 Bom, ent\u00e3o vamos, General, que ainda d\u00e1 tempo para conhecer Mazag\u00e3o Velho!<br><\/em>Diz a lenda que o velho general passou lentamente a vista em volta, contemplou aquela cidade que, em plenos anos sessenta parecia ainda im\u00f3vel no tempo e respondeu:<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u2013 Virgem Maria! Ent\u00e3o ainda tem um Mazag\u00e3o mais velho do que este?<\/em><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p><strong>Jo\u00e3o Wilson Savino Carvalho<\/strong>&nbsp;(Bel\u00e9m do Par\u00e1, 1955). Professor de Filosofia na UNIFAP, contista premiado em Barueri\/SP, Macap\u00e1\/AP e Ituiutaba\/MG. Publicou \u201cDa Vida e Da Sorte por 10 Contos\u201d e \u201cPsicocontos\u201d. Participou da colet\u00e2nea \u201cPoetas, Contistas e Cronistas do Meio do Mundo\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Philos A Revista das latinidades ISSN 2527-113X Desde 2015, a Philos ISSN 2527-113X se consagra \u00e0 promo\u00e7\u00e3o da diversidade LITERATURA PORTUGUESA 30 DE JANEIRO DE 2017 Pedro Cabano, por Jo\u00e3o Wilson Savino Carvalho Pedro era jovem, adolescente mesmo, e isso talvez explicasse a imensa curiosidade que tinha sobre o movimento cabano, chegando mesmo pr\u00f3ximo de [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":607,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[20],"tags":[33],"class_list":["post-605","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-producao-literaria","tag-contos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/wilsoncarvalho.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/605"}],"collection":[{"href":"https:\/\/wilsoncarvalho.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/wilsoncarvalho.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/wilsoncarvalho.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/wilsoncarvalho.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=605"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/wilsoncarvalho.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/605\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":659,"href":"https:\/\/wilsoncarvalho.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/605\/revisions\/659"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/wilsoncarvalho.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/607"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/wilsoncarvalho.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=605"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/wilsoncarvalho.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=605"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/wilsoncarvalho.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=605"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}