{"id":612,"date":"2020-07-09T11:28:57","date_gmt":"2020-07-09T14:28:57","guid":{"rendered":"http:\/\/wilsoncarvalho.com.br\/?p=612"},"modified":"2020-07-20T11:52:00","modified_gmt":"2020-07-20T14:52:00","slug":"o-insuportavel-thu-the","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/wilsoncarvalho.com.br\/index.php\/2020\/07\/09\/o-insuportavel-thu-the\/","title":{"rendered":"O Thu-th\u00e9."},"content":{"rendered":"\n<p><strong>O Thu-th\u00e9.<br><br><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Jo\u00e3o Wilson Savino Carvalho, 31.05.2015<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Thu-th\u00e9 era extremamente brig\u00e3o. \u00c9 bem verdade que ele s\u00f3 conseguia ser assim porque tinha pares t\u00e3o brig\u00f5es como ele. Um era exatamente o meu irm\u00e3o, Wilibaldo, e o outro era o Para\u00edba, que tinha esse apelido mais por conta do nome de uma loja da fam\u00edlia dele que pelo sotaque.<\/p>\n\n\n\n<p>Para o Wili, bastava chama-lo de Billy Balde, e para o Para\u00edba bastava imitar um sotaque nordestino. Para o Thu-th\u00e9 &nbsp;n\u00e3o &nbsp;precisava nada. Podia ser uma derrota na brincadeira de bandeirinha (jogo em que voc\u00ea precisa pegar a bandeira do grupo advers\u00e1rio sem ser tocado por nenhum deles), numa briga de galo (disputa-se pulando em um p\u00e9 s\u00f3, batendo de ombro, com o objetivo de desequilibrar o advers\u00e1rio), ou mesmo sem motivo algum. A verdade \u00e9 que a presen\u00e7a de qualquer um desses tr\u00eas era garantia do fim de qualquer brincadeira. Dois deles brigavam e os demais, de atores passavam a espectadores, e termin\u00e1vamos o s\u00e1bado ou o domingo (no resto da semana n\u00f3s trabalh\u00e1vamos \u2013 naquela \u00e9poca isso era um orgulho, n\u00e3o um crime) assistindo uma briga que n\u00e3o tinha mais fim.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 que a rigorosa \u00e9tica da molecada n\u00e3o permitia que nenhum dos contendores pegasse um pau ou qualquer tipo de arma, ou que intervisse na briga um irm\u00e3o mais velho ou amigo. Tinha de ser no mano a mano, sem apela\u00e7\u00e3o, sob pena de ser o infrator execrado pela turma inteira, como covarde. Afinal, nosso territ\u00f3rio vinha das proximidades da Pra\u00e7a Bar\u00e3o do Rio Branco at\u00e9 o Po\u00e7o do Mato, e fazia fronteira por um lado com o dos moleques do Laguinho, e pelo outro, com o dos moleques do Igarap\u00e9 das Mulheres. Por conta disso, para fazer parte da nossa turma, um garoto precisava manter sua conduta rigorosamente dentro das regras n\u00e3o escritas do grupo. Muitos anos depois, lendo os cl\u00e1ssicos \u201cOs meninos da Rua Paulo\u201d, do h\u00fangaro Ferenc Moln\u00e1r e \u201cCapit\u00e3es da areia\u201d, do brasileiro Jorge Amado, eu entenderia melhor como funcionava tudo aquilo.<\/p>\n\n\n\n<p>Como nos cl\u00e1ssicos da literatura, t\u00ednhamos uma \u00e1rea s\u00f3 nossa, a circunvizinhan\u00e7a do Cine Macap\u00e1, onde a nossa base era a sede dos professores, um enorme pr\u00e9dio eternamente em constru\u00e7\u00e3o, com uma imensa \u00e1rea onde sempre se encontrava um providencial monte de areia e um espa\u00e7o aberto para um campinho de futebol. Ou seja, um para\u00edso para os moleques duma \u00e9poca ainda n\u00e3o dominada pela matrix de hoje.<\/p>\n\n\n\n<p>Era um grupo bem hierarquizado. Os grand\u00f5es j\u00e1 se empavonavam para as meninas e n\u00e3o se misturavam com a gente de jeito nenhum. O grupo intermedi\u00e1rio era uma esp\u00e9cie de meio-termo. Convivia conosco, que \u00e9ramos os menores, por falta de op\u00e7\u00e3o. Mas eles ditavam as regras e prestavam contas \u00e0s m\u00e3es, que nunca perdiam ningu\u00e9m de vista, sempre prontas para repor a ordem na base da chinelada. Os pais, claro, n\u00e3o precisavam bater em ningu\u00e9m, afinal, bastava um olhar severo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o bastasse tudo isso, n\u00f3s, os menores, que \u00e9ramos obrigados a usar o cabelo com corte militar (dava menos despesa para os pais), e ficar levando \u201cselo\u201d dos mais velhos o tempo todo, ainda t\u00ednhamos que suportar o briguento do Thu-th\u00e9. O Wili era meu irm\u00e3o e eu tinha que suport\u00e1-lo mesmo. O Para\u00edba morava na \u00e1rea comercial e nem sempre estava no meio do nosso grupo. Mas o Thu-th\u00e9 n\u00e3o, esse morava bem ao lado do Cine Macap\u00e1, e at\u00e9 quando \u00edamos trocar revistas em quadrinhos antes da sess\u00e3o de cinema, aos domingos, l\u00e1 estava ele procurando confus\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, uma tardinha, est\u00e1vamos eu e o Riba beirando a turma dos mais velhos, aproveitando para ouvir piadas chulas e hist\u00f3rias fantasiosas de namoradas que nem existiam, quando passou um japon\u00eas em uma bicicleta velha, levando em uma das m\u00e3os um paneiro de tomates bem maduros. Naquela \u00e9poca nada era politicamente incorreto, e tirar gra\u00e7a com sotaque de japon\u00eas era coisa muito natural. Da\u00ed aconteceu o que era de se esperar: um dos mais velhos chamou o passante por um daqueles nomes que soam tal como a l\u00edngua japonesa, mas em portugu\u00eas resultam numa obscenidade. Em troca recebeu o arremesso certeiro de um tomate, que explodiu no autor da gra\u00e7a e espirrou em todo mundo. Uma das cenas mais hil\u00e1rias que j\u00e1 vi. A chuva de pedras que se seguiu fez o japon\u00eas abandonar o paneiro de tomates para poder fugir, e ele ficou l\u00e1, na beira da rua de pi\u00e7arra vermelha, sem chamar muita aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando conseguimos parar de rir, eu e o Riba, passamos a filosofar. Ele falou algo sobre como as guerras seriam mais divertidas se os soldados lutassem arremessando tomates podres uns nos outros, e da\u00ed chegamos a conclus\u00e3o inevit\u00e1vel: precis\u00e1vamos jogar um tomate daqueles em algu\u00e9m. Mas em quem?<\/p>\n\n\n\n<p>No Thu-th\u00e9, claro! Afinal, de todas as pessoas que conhec\u00edamos, ele era o que mais merecia.<\/p>\n\n\n\n<p>No dia seguinte era um s\u00e1bado, dia em que brinc\u00e1vamos de guerra de bu\u00e7\u00fa na praia da Fortaleza. O bu\u00e7\u00fa era caro\u00e7o grande e muito abundante em Macap\u00e1 naquela \u00e9poca, que na praia ficava encharcado e mais ou menos mole. Era muito dif\u00edcil acertar em algu\u00e9m com aquilo, j\u00e1 que os moleques estavam sempre preparados. Mas com um tomate, e escondidos no mato do barranco vermelho por cima da prainha, ter\u00edamos no Thu-th\u00e9 um alvo f\u00e1cil. E o mais divertido \u00e9 que ele nem saberia de onde os petardos estariam vindo.<\/p>\n\n\n\n<p>Disfar\u00e7amos os tomates em sacos de papel e fomos correndo para a prainha que ficava na frente da Fortaleza S\u00e3o Jos\u00e9 de Macap\u00e1, na \u00e9poca em que ainda n\u00e3o existia o imenso aterro que cobriu o igarap\u00e9 e a velha doca, evitando que um dia o Amazonas derrubasse o forte. Tomamos a estradinha contornava a fortaleza pelo lado direito e saia bem em cima da descida para a praia. Bem antes disso encontramos o Thu-th\u00e9. Ele vinha soturno e triste, nem parecia o mesmo. Escondemos os tomates a toa porque ele nem olhou direito pra gente. Disse apenas \u201ctiraram a nossa praia. Os milicos ficaram com ela&#8230; Nunca mais vamos brincar l\u00e1&#8230;\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Foi uma premoni\u00e7\u00e3o. Depois uma cerca fechou os dois lados da praia, e nem vadeando o igarap\u00e9 consegu\u00edamos mais entrar. Depois foram as instala\u00e7\u00f5es de um clube e d\u00e9cadas de ocupa\u00e7\u00e3o privada daquele espa\u00e7o p\u00fablico. Felizmente n\u00e3o conseguiram concluir antes do final da ditadura um enorme galp\u00e3o que encobriria at\u00e9 a vista da na Fortaleza. Ao mesmo tempo come\u00e7ou a atua\u00e7\u00e3o das inst\u00e2ncias legalmente encarregadas da prote\u00e7\u00e3o do patrim\u00f4nio hist\u00f3rico e seu entorno, e finalmente a prainha foi devolvida \u00e0 popula\u00e7\u00e3o. Pena que agora nem \u00e9 mais uma prainha, j\u00e1 que, em fun\u00e7\u00e3o do aterro, restou dela menos de um quarto.<\/p>\n\n\n\n<p>E o Thu-th\u00e9? Bom, da \u00faltima vez que ouvi falar dele foi quando estud\u00e1vamos em Bel\u00e9m. Algu\u00e9m contou que ele estava com um grupo de estudantes b\u00eabados e amanhecidos em um bar das proximidades da Pra\u00e7a do Rel\u00f3gio quando passou um grupo de halterofilistas dirigindo-se \u00e0 academia. O Thu-th\u00e9 teria se levantado, se aproximado da porta fazendo um movimento semicircular com um dos bra\u00e7os, desafiando: \u201cE Ah\u00ea\u00ea seus sapos cururu, querem encarar uma briga? Meu grupo contra o de voc\u00eas?\u201d Felizmente, para ele e para os outros estudantes magrelos, foi solenemente ignorado pelos ginastas. \u200b<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Thu-th\u00e9. Jo\u00e3o Wilson Savino Carvalho, 31.05.2015 Thu-th\u00e9 era extremamente brig\u00e3o. \u00c9 bem verdade que ele s\u00f3 conseguia ser assim porque tinha pares t\u00e3o brig\u00f5es como ele. 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