{"id":614,"date":"2020-07-09T11:31:41","date_gmt":"2020-07-09T14:31:41","guid":{"rendered":"http:\/\/wilsoncarvalho.com.br\/?p=614"},"modified":"2020-07-20T07:48:36","modified_gmt":"2020-07-20T10:48:36","slug":"o-espirito-de-macapa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/wilsoncarvalho.com.br\/index.php\/2020\/07\/09\/o-espirito-de-macapa\/","title":{"rendered":"O Esp\u00edrito de Macap\u00e1."},"content":{"rendered":"\n<p><strong>O Esp\u00edrito de Macap\u00e1.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Jo\u00e3o Wilson Savino Carvalho<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Pr\u00eamio Confraria Tucuju\/Prefeitura Municipal de Macap\u00e1, 2005<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"959\" height=\"640\" src=\"http:\/\/wilsoncarvalho.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/DocaFortaleza2.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-722\" srcset=\"https:\/\/wilsoncarvalho.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/DocaFortaleza2.jpg 959w, https:\/\/wilsoncarvalho.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/DocaFortaleza2-300x200.jpg 300w, https:\/\/wilsoncarvalho.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/DocaFortaleza2-768x513.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 959px) 100vw, 959px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Ele apareceu para n\u00f3s, ali, bem no meio da conversa. E n\u00e3o era uma apari\u00e7\u00e3o dessas esvoa\u00e7antes e l\u00fagubres. N\u00e3o, ele era forte, alegre, n\u00edtido e de contornos bem definidos, e n\u00f3s o captamos de repente, quando convers\u00e1vamos, eu e um amigo, tamb\u00e9m macapaense.<\/p>\n\n\n\n<p>Tudo come\u00e7ou quando, distraidamente deixei escapar o quanto o passado do nosso Macap\u00e1 feliz ainda estava presente na minha vida: <em>\u201c&#8230;E eu trabalhava numa banca de revistas na ponte da rua C\u00e2ndido Mendes&#8230;\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; <em>Ponte na rua C\u00e2ndido Mendes? Onde? <\/em>Meu amigo me olhou intrigado. Sua express\u00e3o demonstrava que percorria mentalmente toda a extens\u00e3o da rua, procurando, debalde, onde poderia existir uma ponte. E de fato, agora n\u00e3o existia mais.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; <em>\u00c9 o cruzamento da C\u00e2ndido Mendes com a Av. Mendon\u00e7a J\u00fanior&#8230; Ali era um igarap\u00e9 que vinha serpenteando, n\u00e3o sei de onde&#8230; Era l\u00e1 a ponte&#8230; Depois o igarap\u00e9 ia abrindo devagar, da lateral da fortaleza at\u00e9 pr\u00f3ximo do Hotel&#8230; Era ali que come\u00e7ava a antiga doca, n\u00e3o lembras mais?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Pronto, foi o suficiente. Quedamos perdidos nas lembran\u00e7as. A colcha de retalhos de nossa inf\u00e2ncia, formada pelas canoas com suas velas de variados tons pasteis, todas enfileiradas ao lado direito do rio parecia at\u00e9 estar ali, bem na nossa frente. Depois eu soube que aquele tom era resultado de uma resina de madeira que os canoeiros passavam nas velas para torna-las imperme\u00e1veis.<\/p>\n\n\n\n<p>E foi assim que n\u00f3s nos reencontramos, eu e ela, junto \u00e0 antiga Doca, ante o Rio Amazonas e com a sua eterna impon\u00eancia. Era l\u00e1 que eu, em cima da ponte, trabalhava desde cedo, como era apropriado a um bom garoto naquela \u00e9poca. Ali\u00e1s, trabalhava \u00e9 modo de dizer. Na verdade, cuidava de uma pequena banca de revistas, dessas que, quando fechadas, ficam menores ainda. E o meu cuidar era bem relativo. Tinha uns treze anos e adorava ler. Lia tudo, at\u00e9 fotonovela. Aguardava ansiosamente a chegada das principais revistas de informa\u00e7\u00e3o geral, a Sele\u00e7\u00f5es, os quadrinhos, e, por fim, meio que clandestinamente, lia at\u00e9 hist\u00f3rias de amor.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c0s vezes aparecia algum chato querendo comprar. Era despachado rapidamente. Mas nas mais das vezes, eu ficava cercado de parceiros, que solid\u00e1rios, liam uma ou duas revistas antes de comprar a mais barata. Talvez tenha sido por isso que, num dia triste, o dono resolveu fechar.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas meus melhores momentos surgiam exatamente quando havia uma canoa saindo da doca. Era fascinante&#8230; O canal que entrava no rio era caprichoso, e os canoeiros, embora o conhecessem bem, tinham que sair empurrando a canoa com longas varas de taboca, at\u00e9 um determinado ponto do igarap\u00e9, quando, de repente, enfurnavam as velas e saiam orgulhosamente, quase contra o vento, como que a enfatizar que, para viver, s\u00f3 dependiam de sua habilidade, ou de sua arte. E eu parava tudo para assistir isso. Ali\u00e1s, eu s\u00f3 olhava para a frente, na dire\u00e7\u00e3o do rio, jamais olhava para tr\u00e1s, na dire\u00e7\u00e3o da cidade. Era l\u00e1, na sa\u00edda para o rio, que estava a identidade da minha cidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Enfim, era uma ponte sobre um igarap\u00e9 e que dava continuidade \u00e0 rua do com\u00e9rcio, que, um dia, j\u00e1 havia sido conhecida como rua da praia. E, junto dessa ponte, uma doca, uma esp\u00e9cie de cais de barranco, onde&nbsp; canoas encostavam direto na terra, trazendo de tudo, de palhas de ubu\u00e7\u00fa a peixe seco.<\/p>\n\n\n\n<p>E claro, muitos caboclos ing\u00eanuos, vindos do interior, geralmente das ilhas do vizinho Par\u00e1. E, como n\u00e3o podia faltar em um cais, tamb\u00e9m os espertalh\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Havia especialmente dois, com quem eu mantinha uma rela\u00e7\u00e3o de admira\u00e7\u00e3o e desprezo. Viviam de pequenos golpes, sempre do mesmo estilo. Um cord\u00e3o rebrilhante dentro de um embrulhinho de papel celofane vermelho, com o contraste dando uma impress\u00e3o de maior brilho. Sempre havia um canoeiro para cair no conto. As vezes parecia mesmo uma presa que est\u00e1 sendo mundiada por uma cobra. O caboclo que, no come\u00e7o parecia n\u00e3o dar a menor aten\u00e7\u00e3o \u00e0 oferta, tamb\u00e9m n\u00e3o saia dali. Ficava fitando o vazio, e, de repente, como que hipnotizado pelo falat\u00f3rio do vendedor, parecia se sentir na obriga\u00e7\u00e3o de comprar. E comprava um cord\u00e3ozinho de fantasia a pre\u00e7o de ouro.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o sei bem se era a voz sussurrada, como quem est\u00e1 fazendo algo escondido, ou talvez o gestual, puxando do bolso o cord\u00e3o embrulhado, e olhando sempre para os lados, como quem espera a pol\u00edcia chegar de repente&#8230; Havia algo que fazia o caboclo pensar que era uma oportunidade que deveria obrigatoriamente ser aproveitada.<\/p>\n\n\n\n<p>Afinal, o conto do vig\u00e1rio, em qualquer modalidade que seja, \u00e9 sempre um golpe que tem como fundamento a ambi\u00e7\u00e3o do ot\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Um desses espertalh\u00f5es, apelidado \u201cGiramundo\u201d, era conhecido assim porque dizia ter rodado o mundo todo. Eu olhava para ele at\u00e9 com uma certa com inveja, que hoje sei descabida. \u00c9 que eu o vejo, ainda hoje, circulando pelo meio dos camel\u00f4s, no centro comercial de Macap\u00e1. Vende antenas de televis\u00e3o, acho. Sua cabe\u00e7a, j\u00e1 bem branquinha, parece ter sido atacada por alguma estranha variedade de cupins, mostrando o couro cabeludo em v\u00e1rios pontos. E, por incr\u00edvel que pare\u00e7a, o desgra\u00e7ado ainda exibe um ar feliz.<\/p>\n\n\n\n<p>Era aquele um lugar completo. A par das casas de estiva, havia at\u00e9 uma esp\u00e9cie de barzinho, onde as pessoas se reuniam para conversar. Falavam em voz alta, e quem n\u00e3o era da regi\u00e3o podia pensar at\u00e9 que estavam brigando. Falar mal do governo em altos brados, contar anedotas chulas, gritar com o moleque que estava se aproximando demais da \u00e1gua, eram mesmo coisas do temperamento dos macapaenses de antigamente, tal como intrometer-se at\u00e9 na din\u00e2mica interna da vida das fam\u00edlias dos compadres.<\/p>\n\n\n\n<p>Era comum, no Macap\u00e1 daquela \u00e9poca, um adulto chamar uma crian\u00e7a da vizinhan\u00e7a e ordenar que fosse l\u00e1 na outra quadra, saber porque um determinado carro j\u00e1 estava um temp\u00e3o parado na frente da casa do compadre Fulano. E ai do moleque que n\u00e3o obedecesse&#8230; Do mesmo jeito que todos os adultos tomavam conta de todas as crian\u00e7as, como se fossem suas, as crian\u00e7as deviam obedi\u00eancia a todos os adultos, como se todos fossem pais. O que vemos hoje, crian\u00e7as passando com uma latinha de cola enrolada na camisa e enterrada no nariz, naquela \u00e9poca seria inconceb\u00edvel. O moleque, mesmo que fosse desconhecido, levaria uma surra do primeiro adulto que encontrasse&#8230; Pr\u00f3s e contras de uma vida provinciana. Uma vida que se foi&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Mas houve um inc\u00eandio. Primeiro de um lado da rua. Depois outro, que levou todo o antigo casario. Depois foi o aterro que transformou em uma linda pra\u00e7a o local onde antes o igarap\u00e9 entrava no rio. Esse igarap\u00e9, que se tornou um canal de geom\u00e9trica perfei\u00e7\u00e3o, correndo bem no meio da Avenida, segue agora despercebido e comportado, como um moleque danado obrigado a andar de palet\u00f3, revelando-se s\u00f3 pelo odor.<\/p>\n\n\n\n<p>A pitoresca doca deixou de existir. O estaleiro, nem lembro mais onde era exatamente. Tudo agora est\u00e1 sim\u00e9trico e a ponte \u00e9 ent\u00e3o apenas um peda\u00e7o an\u00f4nimo da rua, um cruzamento, como tantos outros. S\u00f3 a fortaleza segue, imponente e indiferente \u00e0s tantas vidas e sonhos que por ali passaram, seguidamente, talvez at\u00e9 repetidamente, sem sequer deixar rastro.<\/p>\n\n\n\n<p>Sem d\u00favida, tudo est\u00e1 bem mais bonito, mas acho que falta algo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 que as cidades t\u00eam um esp\u00edrito, e, como nas pessoas, ele \u00e9 elaborado com o tempo. E tamb\u00e9m como nas pessoas, com o tempo, esse esp\u00edrito da cidade vai se quebrando aos peda\u00e7os. Quando aquela doca saiu dali, com certeza a cidade ficou mais urbanizada, mas perdeu muito de seu esp\u00edrito.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela era parte da identidade daquela Macap\u00e1 que gostava de ser provinciana, daquela Macap\u00e1 da liberdade dos moleques que corriam descal\u00e7os, com os p\u00e9s na pi\u00e7arra das ruas, daquela que foi perdendo devagar alguns de seus insignificantes espa\u00e7os, como a Doca, a Mata do Rocha, o Po\u00e7o do Mato<em>,<\/em> os Lagos do Pacoval, o Morro do Sapo&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Peda\u00e7os de Macap\u00e1 que se foram como a inf\u00e2ncia, junto com o orgulho de nossos p\u00e9s descal\u00e7os, da mais pura liberdade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Esp\u00edrito de Macap\u00e1. Jo\u00e3o Wilson Savino Carvalho Pr\u00eamio Confraria Tucuju\/Prefeitura Municipal de Macap\u00e1, 2005 Ele apareceu para n\u00f3s, ali, bem no meio da conversa. E n\u00e3o era uma apari\u00e7\u00e3o dessas esvoa\u00e7antes e l\u00fagubres. N\u00e3o, ele era forte, alegre, n\u00edtido e de contornos bem definidos, e n\u00f3s o captamos de repente, quando convers\u00e1vamos, eu e [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":725,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[20],"tags":[34],"class_list":["post-614","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-producao-literaria","tag-cronicas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/wilsoncarvalho.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/614"}],"collection":[{"href":"https:\/\/wilsoncarvalho.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/wilsoncarvalho.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/wilsoncarvalho.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/wilsoncarvalho.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=614"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/wilsoncarvalho.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/614\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":723,"href":"https:\/\/wilsoncarvalho.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/614\/revisions\/723"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/wilsoncarvalho.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/725"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/wilsoncarvalho.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=614"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/wilsoncarvalho.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=614"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/wilsoncarvalho.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=614"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}