{"id":718,"date":"2020-07-15T21:46:40","date_gmt":"2020-07-16T00:46:40","guid":{"rendered":"http:\/\/wilsoncarvalho.com.br\/?p=718"},"modified":"2020-07-21T09:37:20","modified_gmt":"2020-07-21T12:37:20","slug":"a-literatura-regional-no-ensino-de-filosofia-comunicacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/wilsoncarvalho.com.br\/index.php\/2020\/07\/15\/a-literatura-regional-no-ensino-de-filosofia-comunicacao\/","title":{"rendered":"A Literatura Regional no Ensino de Filosofia. Comunica\u00e7\u00e3o."},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Comunica\u00e7\u00e3o proferida pelo Prof. Dr. Jo\u00e3o Wilson Savino Carvalho (UNIFAP), em 31 de julho de 2014 -14h30, Caf\u00e9 Liter\u00e1rio \u2013 Clube de Autores, Circuito Off Flip das Letras(Rj)\/Abepor\u00e1 das Palavras(AP), 12\u00ba Festa Internacional do Livro de Paraty \u2013 31 de julho a 3 de agosto de 2014, em Paraty\/RJ.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Para conhecer a programa\u00e7\u00e3o, <a href=\"http:\/\/www.paraty.com.br\/mobile\/flip2014\/programacao-outros-eventos.asp\" target=\"_blank\" aria-label=\"undefined (opens in a new tab)\" rel=\"noreferrer noopener\">clique aqui.<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Introdu\u00e7\u00e3o:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O fundamento desta Comunica\u00e7\u00e3o \u00e9 o Projeto de Pesquisa e Extens\u00e3o \u201cAprendendo Filosofia com a Literatura Regional\u201d, desenvolvido pelo autor na Universidade Federal do Amap\u00e1, com base na experi\u00eancia de 10 anos de magist\u00e9rio de Filosofia no ensino m\u00e9dio, no antigo Instituto de Educa\u00e7\u00e3o do Amap\u00e1, com apoio te\u00f3rico no pensamento de Paulo Freire (2001) \u2013 a leitura da palavra como leitura do mundo; Hans Geor Gadamer (1995) \u2013 a Filosofia como hermen\u00eautica do sentido e a Educa\u00e7\u00e3o como um processo de cria\u00e7\u00e3o de novas maneiras de compreender, de agir e de dialogar;&nbsp; Mathew Lipman (1994) \u2013 a necessidade de constru\u00e7\u00e3o de uma mentalidade investigativa e filos\u00f3fica pela explora\u00e7\u00e3o dos aspectos \u00e9ticos e est\u00e9ticos da literatura; e Maria Cec\u00edlia Mynaio (1993) \u2013 a hermen\u00eautica-dial\u00e9tica como linha metodol\u00f3gica que entende a metodologia como parte central na teoriza\u00e7\u00e3o, posto que intr\u00ednseca \u00e0 vis\u00e3o de mundo veiculada na teoria, onde o m\u00e9todo \u00e9 o pr\u00f3prio processo de desenvolvimento das coisas, \u00e9 o cerne do conte\u00fado enquanto faz a rela\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica entre pensamento e exist\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar desse referencial te\u00f3rico, importa firmar aqui que o objetivo de entender o ensino de Filosofia a partir da literatura regional do Amap\u00e1, e n\u00e3o inverso, e por isso as conclus\u00f5es do discurso ser\u00e3o estabelecidas a partir das respostas a tr\u00eas quest\u00f5es interligadas teoricamente: o que \u00e9 Filosofia? \u00c9 poss\u00edvel ensinar Filosofia? Por que a literatura regional?<\/p>\n\n\n\n<p>1. A Filosofia.<\/p>\n\n\n\n<p>Tomando a defini\u00e7\u00e3o mais elementar e geral da Filosofia, que est\u00e1 inscrita no termo que vem suportando o significado no pensamento ocidental h\u00e1 mil\u00eanios, de busca permanente de conhecimento sobre tudo o que existe (o ser), motivada pela necessidade de entender o mundo e as coisas, inerente ao processo de humaniza\u00e7\u00e3o, feita por meio do processo especulativo (m\u00e9todo reflexivo-cr\u00edtico), encontrar\u00edamos logo interessantes pontos de contato com a Arte, em entre as artes, em especial, com a Literatura, na medida em que ambas s\u00e3o formas de interpreta\u00e7\u00e3o da realidade motivadas pela exig\u00eancia imperiosa que o ser humano tem de sentido, finalidade, ou, em uma express\u00e3o mais incisiva, de se humanizar cada vez mais em processo permanente e hist\u00f3rico.<\/p>\n\n\n\n<p>Entendida a Filosofia como busca especulativa e radical sobre o sentido do ser, permanente e constante ao longo da hist\u00f3ria da humanidade, fatal \u00e9 a implica\u00e7\u00e3o com o processo de socializa\u00e7\u00e3o e, consequentemente, com a Educa\u00e7\u00e3o. Resume-se esse argumento no fato de que verdadeira Filosofia n\u00e3o existe em abstrato, mas t\u00e3o somente inserida em uma rela\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica com o social (inter-rela\u00e7\u00e3o Filosofia \u2013 Educa\u00e7\u00e3o \u2013 Sociedade), de m\u00faltiplas determina\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>De fato, se, por um lado, a classe dominante na sociedade \u00e9 que estabelece que tipo de educa\u00e7\u00e3o deva ser aplicada as gera\u00e7\u00f5es mais jovens, e no processo educativo formal (mas tamb\u00e9m no informal) se define o entendimento do que \u00e9 Filosofia, sendo a Filosofia, em ess\u00eancia, um conhecimento radicalmente cr\u00edtico, sempre poder\u00e1 se apresentar como elemento dissonante e rebelde, ou intempestivo, como se refere Jules Deleuze (1992), desvendando a aliena\u00e7\u00e3o e explicando teoricamente o mundo, estabelecendo (por que n\u00e3o?) a utopia.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 bem verdade que na mais das vezes a Filosofia \u00e9 apresentada nas escolas como uma esp\u00e9cie de saber m\u00edstico, abstrato, \u00e1rido e sem sentido, pr\u00f3prio para o diletantismo dos intelectuais, dos eruditos (que n\u00e3o s\u00e3o fil\u00f3sofos), ou seja, como uma anti-filosofia, por que n\u00e3o apresenta suas caracter\u00edsticas fundamentais de saber abrangente, radical e cr\u00edtico, que s\u00f3 faz sentido na sociedade, em qualquer \u00e9poca, em um enfrentamento permanente com a ideologia dominante. \u00c9 comum, por isso, que se naturalize como inovadora a ideia de que n\u00e3o se ensina Filosofia, mas t\u00e3o somente Hist\u00f3ria da Filosofia, de onde o aluno poder\u00e1 desenvolver seus posicionamentos filos\u00f3ficos.<\/p>\n\n\n\n<p>Na verdade, n\u00e3o \u00e9 bem assim. Trata-se de ensinar a filosofar, e a Hist\u00f3ria da Filosofia, se apresentada ao aluno sem a conex\u00e3o de sentido com o processo social e hist\u00f3rico (como soe acontecer), resulta no velho ensino de filosofia, no qual a aten\u00e7\u00e3o do aluno era mantida por meio de mecanismos de motiva\u00e7\u00e3o extr\u00ednseca, perdendo-se um elemento essencial da Filosofia, que, como j\u00e1 se disse, aparece na sua pr\u00f3pria denomina\u00e7\u00e3o de \u201camor ao saber\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>2. A Literatura Regional.<\/p>\n\n\n\n<p>A literatura \u00e9 a arte da palavra (bela), e que, entre todas as artes, \u00e9 a que mais se aproxima da Filosofia, por que constitui, de toda sorte, um discurso sobre o mundo e a vida. Assim, embora a Filosofia se apresente como um discurso pautado em um m\u00e9todo (especulativo ou reflexivo-cr\u00edtico), e tenha como crit\u00e9rio de verdade a coer\u00eancia l\u00f3gica (positivismos) e\/ou as consequ\u00eancias sociais e existenciais (filosofias hist\u00f3rico-cr\u00edticas), enquanto que a arte constitui um discurso que tem como base o talento do artista e a sensibilidade do apreciador, e que por isso aparentam certo distanciamento te\u00f3rico, o fato \u00e9 que arte \u00e9 tamb\u00e9m uma rela\u00e7\u00e3o de conhecimento enquanto forma de interpreta\u00e7\u00e3o da realidade, e mais, que acontece num processo de comunica\u00e7\u00e3o emp\u00e1tica e altamente eficaz, onde a vontade tem papel fundamental.<\/p>\n\n\n\n<p>O que chamamos aqui de literatura regional, no caso espec\u00edfico deste estudo, \u00e9 a produ\u00e7\u00e3o intelectual falada ou escrita, sobre qualquer tema liter\u00e1rio, feita por amapaenses (logo, carregando nossas formas pr\u00f3prias e singulares de ver o mundo e estabelecer sentidos), ou sobre o Amap\u00e1 e sua gente. De forma geral podemos dizer que a literatura regional \u00e9 aquela que expressa o modo de ser do povo do lugar, e constitui parte da identidade desse povo.<\/p>\n\n\n\n<p>3. A Aplica\u00e7\u00e3o na Sala de Aula.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim entendidos a Filosofia, a Educa\u00e7\u00e3o e a Literatura Regional, inter-relacionados como uma totalidade dial\u00e9tica, f\u00e1cil se apresenta o verdadeiro sentido de substituir o \u201censino de Filosofia\u201d pelo \u201censinar a filosofar\u201d, a partir da aplica\u00e7\u00e3o da literatura regional na sala de aula de Filosofia, em tr\u00eas n\u00edveis de profundidade de atua\u00e7\u00e3o do professor com o conte\u00fado e com o material did\u00e1tico (textos liter\u00e1rios regionais):<\/p>\n\n\n\n<p>1) A literatura com mote para a reflex\u00e3o filos\u00f3fica. Um exemplo no uso da cr\u00f4nica \u201cO Esp\u00edrito de Macap\u00e1\u201d, de Wilson Carvalho (BISPO, 2010. Vol III; pag. 82), onde a no\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica de \u201cesp\u00edrito\u201d pode ser discutida a partir do texto, como pre\u00e2mbulo para a explica\u00e7\u00e3o do idealismo e o historicismo hegeliano, ou para a explica\u00e7\u00e3o do culturalismo no contexto da oposi\u00e7\u00e3o ontol\u00f3gica materialismo x idealismo na filosofia ocidental. Na mesma linha: \u201cMeu Rio \u00e9 Minha Escola\u201d, de Carla Nobre (BISPO, 2010. Vol I, pag. 76).<\/p>\n\n\n\n<p>2) As quest\u00f5es da Filosofia na perspectiva da literatura. Um exemplo no texto \u201cPequeno Poema de Incredulidade\u201d, de Paulo de Tarso (BISPO, 2010. Vol IV; pag. 106):<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEnt\u00e3o me sentarei sozinho e talvez me detenha por momentos a contemplar os detalhes da parede: sombras, teias de aranha, uma rachadura, como se essas vis\u00f5es me conduzissem ao infinito das coisas finitas\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Da quest\u00e3o da felicidade pessoal a ser trabalhada no ensino fundamental \u00e0 quest\u00e3o da finitude e da temporalidade humana no pensamento de Heiddeger (2005), a ser trabalhado em um curso de licenciatura em Filosofia, o poema (completo) de Paulo de Tarso \u00e9 perfeito. Na mesma linha: \u201cPaisagem Antiga\u201d, de Alcin\u00e9a Cavalcante (MESQUITA, 2012; pag. 16), ou \u201cEsbo\u00e7o de Uma Teoria da Alma Humana\u201d, de S\u00e2nzia Fernandes (BISPO, 2010. Vol I; pag. 43)<\/p>\n\n\n\n<p>3) A reflex\u00e3o filos\u00f3fica sobre o texto liter\u00e1rio. Um exemplo no epis\u00f3dio do \u201cEngasga\u201d, que aparece no romance de Maria Ester Pena Carvalho, onde os conceitos de aliena\u00e7\u00e3o e ideologia podem ser discutidos em profundidade, com uma demonstra\u00e7\u00e3o veross\u00edmil (embora se trate de fic\u00e7\u00e3o), de como a mitologia regional pode ser utilizada para plasmar significados absurdos numa sociedade fechada, sem discuss\u00e3o ou coer\u00eancia l\u00f3gica. Outro exemplo de grande fertilidade para o trabalho em sala de aula, nesse sentido, \u00e9 o conto de Fernando Canto (BISPO, 2010. Vol II, pag. 36), Brasa Balan\u00e7ante (Um Conto do Tempo da Guerrilha).<\/p>\n\n\n\n<p>Conclus\u00e3o:<\/p>\n\n\n\n<p>A literatura como um todo, mas especialmente a literatura regional, se apresenta n\u00e3o apenas como um rico material para a reflex\u00e3o filos\u00f3fica em sala de aula, principalmente pelos significados relativos identidade e a forma\u00e7\u00e3o cultural do lugar, abordados literariamente por pessoas que conseguem \u201cver\u201d esses significados por uma perspectiva divergente, mas tamb\u00e9m por constituir uma forma de abordagem transdisciplinar de temas extremamente caros tanto \u00e0 Filosofia como \u00e0 literatura, como a felicidade, os valores \u00e9tico-morais, a justi\u00e7a formal (ou injusti\u00e7a), ou a desigualdade social.<\/p>\n\n\n\n<p>Bibliografia:<\/p>\n\n\n\n<p>BISPO, Manoel (Org.). Colet\u00e2nea de Poetas, Contistas e Cronistas do Meio do Mundo \u2013 Projeto Sama\u00fama da Literatura Amapaense. Vol. I (Contos). Vol. II (Poesias). Vol. III (Cr\u00f4nicas). Macap\u00e1 : Ed. JM, 2010.<\/p>\n\n\n\n<p>CARVALHO, J. W. S. Temas B\u00e1sicos em Filosofia. Macap\u00e1, UNIFAP : 1993.<\/p>\n\n\n\n<p>CARVALHO, Maria Ester Pena. As aventuras do professor Pierre na terra tucuju\u201d. Paraty\/Rj : Selo Off Flip, 2013.<\/p>\n\n\n\n<p>DELEUZE, Giles &amp; GUATARI, Felix. O que \u00e9 Filosofia. Rio de Janeiro : Ed. 34, 1992.<\/p>\n\n\n\n<p>FREIRE, Paulo. A\u00e7\u00e3o Cultural para a Liberdade e outros Escritos. 9.ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2001.<\/p>\n\n\n\n<p>HABERMAS, J.&nbsp;Dial\u00e9tica e Hermen\u00eautica. Porto Alegre, Ed. LPM, 1987.<\/p>\n\n\n\n<p>KOHAN, Walter Omar, LEAL, Bernardina e RBEIRO, \u00c1lvaro (Org.). Filosofia na Escola P\u00fablica. Petr\u00f3polis : Vozes, 2000.<\/p>\n\n\n\n<p>LIPMAN, Mathew. A Filosofia na Sala de Aula. S\u00e3o Paulo : Nova Alexandria, 1994.<\/p>\n\n\n\n<p>MESQUITA, Cleia; BAIA, Fernanda e ALVES, Mara (Org.). Poesia na Boca da Noite. S\u00e3o Leopoldo : Oikos, 2012.<\/p>\n\n\n\n<p>MINAYO, M. C. de S.&nbsp;O Desafio do Conhecimento; pesquisa qualitativa&nbsp;em sa\u00fade. S\u00e3o Paulo: Hucitec\u2011Abrasco, 1993.<\/p>\n\n\n\n<p>PORTELA, Eduardo \u2013 Literatura e Realidade Nacional. Rio de Janeiro : Tempo Brasileiro, 1971.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Comunica\u00e7\u00e3o proferida pelo Prof. Dr. Jo\u00e3o Wilson Savino Carvalho (UNIFAP), em 31 de julho de 2014 -14h30, Caf\u00e9 Liter\u00e1rio \u2013 Clube de Autores, Circuito Off Flip das Letras(Rj)\/Abepor\u00e1 das Palavras(AP), 12\u00ba Festa Internacional do Livro de Paraty \u2013 31 de julho a 3 de agosto de 2014, em Paraty\/RJ. Para conhecer a programa\u00e7\u00e3o, clique aqui. 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