{"id":796,"date":"2020-09-07T09:35:30","date_gmt":"2020-09-07T12:35:30","guid":{"rendered":"http:\/\/wilsoncarvalho.com.br\/?p=796"},"modified":"2020-09-07T09:35:33","modified_gmt":"2020-09-07T12:35:33","slug":"meu-penultimo-debate-com-um-conservador","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/wilsoncarvalho.com.br\/index.php\/2020\/09\/07\/meu-penultimo-debate-com-um-conservador\/","title":{"rendered":"Meu pen\u00faltimo debate com um conservador"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right\">Jo\u00e3o Wilson Savino Carvalho, SET\/2020<\/p>\n\n\n\n<p>Est\u00e1vamos em meados de 1982, e eu, na \u00e9poca graduado em Filosofia e Psicologia, ensaiava minha primeira p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o e lecionava Filosofia e Psicologia da Educa\u00e7\u00e3o no saudoso Instituto de Educa\u00e7\u00e3o do Amap\u00e1. A ditadura civil-militar ainda se fazia presente no Brasil, mas n\u00e3o era mais obrigat\u00f3rio denomina-la de \u201cRevolu\u00e7\u00e3o de 31 de Mar\u00e7o\u201d, embora ainda n\u00e3o fosse admitido chama-la de \u201cGolpe Militar\u201d. Mas n\u00e3o foi por isso que eu, jovem e praticamente um iniciante no magist\u00e9rio, e ele, um aut\u00eantico e embasado intelectual conservador, entramos em um debate na sala dos professores do IETA, no intervalo do recreio.<\/p>\n\n\n\n<p>A Guerra das Malvinas (para ele, porque para mim era a Guerra do Atl\u00e2ntico Sul, enquanto que para os ingleses era Guerra das Falklands) estava em sua fase mais dif\u00edcil. Os ingleses haviam mandado uma for\u00e7a-tarefa expulsar o ex\u00e9rcito argentino e retomar as ilhas, que desde 1833 detinham a posse, mas que antes disso faziam parte do territ\u00f3rio argentino. Os brit\u00e2nicos tinham levado o primeiro rev\u00e9s com o afundamento de uma corveta de alta tecnologia por um m\u00edssil argentino, mas j\u00e1 estavam preparando o desembarque nas ilhas e se prenunciava um combate absurdamente desigual, em termos de tecnologia b\u00e9lica. Se, por um lado, era extremamente complicado para o Reino Unido levar ao extremo sul das Am\u00e9ricas um contingente numeroso, por outro o poderio b\u00e9lico deles apresentava uma superioridade brutal em rela\u00e7\u00e3o ao argentino.<\/p>\n\n\n\n<p>Lembro que um dos professores teria perguntado quem levaria vantagem em um combate corpo a corpo naquelas ilhas geladas pr\u00f3ximo \u00e0 Ant\u00e1rtida, e eu respondi: <em>os ingleses, com certeza! S\u00e3o soldados experientes e bem equipados, enquanto que os argentinos lutam com recrutas mal preparados. <\/em>Aquilo foi suficiente para que ele, do outro lado da mesa e j\u00e1 irritado, disparasse:<\/p>\n\n\n\n<p><em>&#8211; N\u00e3o! De jeito nenhum! Deus n\u00e3o h\u00e1 de permitir que uma na\u00e7\u00e3o degenerada como a Inglaterra ven\u00e7a uma na\u00e7\u00e3o temente a Deus como a Argentina, que est\u00e1 nesse conflito para recuperar o que lhe \u00e9 de direito!<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Ele era um intelectual tradicional (no sentido gramsciano). Muito culto e religioso, chegava a ser venerado como um exemplo para a educa\u00e7\u00e3o amapaense. Eu come\u00e7ava a angariar o respeito dos colegas do IETA porque tinha coragem de enfrentar o corpo t\u00e9cnico da escola, argumentando que os supervisores deviam atuar mais como apoio t\u00e9cnico aos professores do que como fiscais. Nesse contexto, rapidamente a aten\u00e7\u00e3o de todos os professores presentes na sala se voltaram para o debate que se iniciava. Senti a responsabilidade e retruquei no mesmo n\u00edvel:<\/p>\n\n\n\n<p><em>&#8211; Argentina tem tanto direito sobre as ilhas quanto a Bol\u00edvia tem sobre o Acre, ou o M\u00e9xico sobre o Texas&#8230; Os habitantes das ilhas s\u00e3o todos ingleses, se for feito um plesbicito l\u00e1, eles com certeza v\u00e3o preferir continuar sendo ingleses, a sofrer sob uma ditadura maldita como a da Argentina!<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>&#8211; Um plesbicito numa ilha tomada pela for\u00e7a vale tanto quanto um plesbicito num porta-avi\u00f5es ingl\u00eas. A Argentina \u00e9 uma ditadura, mas l\u00e1 se mant\u00e9m o respeito. N\u00e3o \u00e9 essa degrada\u00e7\u00e3o moral dos ingleses, que n\u00e3o respeitam nada! Dominaram o mundo e exploraram na \u00c1frica, na \u00c1sia e nas Am\u00e9ricas. Agora sua sociedade \u00e9 rica, mas moralmente decadente&#8230;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>As cabe\u00e7as se inclinavam para um lado e para o outro. Quem ganharia o debate? S\u00f3 que eu levava uma grande vantagem. Eu conhecia a obra do professor, enquanto ele nada sabia sobre mim. Por coincid\u00eancia, ainda adolescente eu o ajudei a juntar folhas de papel datilografadas que o vento havia espalhado pela Pra\u00e7a Bar\u00e3o do Rio Branco. Ele, bastante grato, me disse que era o material de seu livro, que ele estava levando de bicicleta para revis\u00e3o. Aquilo me despertou a curiosidade, e muitos anos depois procurei ler o livro, e descobri que l\u00e1 o professor expunha uma tese sobre as indiscut\u00edveis vantagens do progresso, mas demonstrava que isso exigia uma cuidadosa vigil\u00e2ncia sobre o que o acompanha em termos de demoli\u00e7\u00e3o dos mais caros valores da humanidade. Ent\u00e3o eu sabia como ele pensava e procurei o ponto fraco:<\/p>\n\n\n\n<p><em>&#8211; Nenhum ser humano sensato trocaria a vida numa sociedade democr\u00e1tica, ainda que moralmente decadente, e isso \u00e9 question\u00e1vel para a Inglaterra, pela vida numa ditadura&#8230;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>&#8211; Democracia se faz com valores. Se n\u00e3o amo meu pr\u00f3ximo, que me impede de roubar? Nesse conceito de democracia sem valores, sem respeito, sem Deus, n\u00e3o vejo como um ser humano possa levar uma vida satisfat\u00f3ria&#8230;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Ele continuava puxando a discuss\u00e3o para o lado que ele levaria vantagem, mas eu tinha uma carrada de argumentos para desfiar. Ent\u00e3o tocou a sirene do fim do intervalo, mas eu continuei falando:<\/p>\n\n\n\n<p><em>&#8211; Que valores podem justificar um governo empurrar para morte certa, milhares de jovens inocentes, s\u00f3 para desviar a aten\u00e7\u00e3o do povo do fato que a ditadura militar da Argentina est\u00e1 se acabando em corrup\u00e7\u00e3o?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Por\u00e9m ele n\u00e3o se deu ao trabalho de responder. Arrumando suas cadernetas e colocando seu guarda-chuva no antebra\u00e7o levantou-se dizendo:<\/p>\n\n\n\n<p><em>&#8211; Sabe qual \u00e9 a diferen\u00e7a entre um professor tradicional como eu e um jovem progressista como voc\u00ea? \u00c9 que eu cumpro religiosamente minhas obriga\u00e7\u00f5es de trabalho pelas quais sou pago. <\/em>Em seguida, apontou para um belo rel\u00f3gio de algibeira que tinha na m\u00e3o esquerda, mostrando que, a partir daquele momento est\u00e1vamos em hor\u00e1rio de aula, e dirigiu-se \u00e0 sa\u00edda, seguido por um s\u00e9quito de admiradores, enquanto eu ficava l\u00e1 com cara de tacho, pensando em alguns dos meus colegas que se apresentavam como educadores progressistas, mas que jamais cumpriam o hor\u00e1rio como faziam os professores conservadores. Meu pensamento correu c\u00e9lere para a quest\u00e3o dos valores e da integridade como base da a\u00e7\u00e3o educativa para os conservadores. Aprendi muito naquele debate.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 a \u00faltima vez que eu debati com um conservador, foi bem mais recente e aconteceu por causa de um movimento em favor da diversidade sexual, em que ele, indignado com alguns militantes que protestavam enfiando crucifixos no \u00e2nus, chegou a afirmar que gostaria de arrebentar a cara de cada um deles. Como ele era meu amigo e tinha falado aquilo num grupo onde eu estava conversando, achei por bem responder que o direito de protestar \u00e9 essencial para a democracia, e que se algu\u00e9m se sentia atingido, era s\u00f3 denunciar pelo crime de vilip\u00eandio a s\u00edmbolos religiosos, que os autores do crime responderiam na Justi\u00e7a. N\u00e3o cabia desqualificar todo o movimento por isso.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu ainda ia completar com uma criativa solu\u00e7\u00e3o, a inven\u00e7\u00e3o do crucifixo farpado, mas ele se retirou do grupo enraivecido, indicando um local para colocar o crucifixo, que eu n\u00e3o posso mencionar aqui.<\/p>\n\n\n\n<p>Enfim, se na pen\u00faltima discuss\u00e3o aprendi que os valores s\u00e3o a base inatac\u00e1vel do pensamento conservador, enquanto que, na \u00faltima, apenas descobri que j\u00e1 n\u00e3o fazem mais intelectuais conservadores como os de antigamente.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jo\u00e3o Wilson Savino Carvalho, SET\/2020 Est\u00e1vamos em meados de 1982, e eu, na \u00e9poca graduado em Filosofia e Psicologia, ensaiava minha primeira p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o e lecionava Filosofia e Psicologia da Educa\u00e7\u00e3o no saudoso Instituto de Educa\u00e7\u00e3o do Amap\u00e1. 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