{"id":801,"date":"2020-09-29T23:19:30","date_gmt":"2020-09-30T02:19:30","guid":{"rendered":"http:\/\/wilsoncarvalho.com.br\/?p=801"},"modified":"2020-09-29T23:19:31","modified_gmt":"2020-09-30T02:19:31","slug":"a-formacao-do-sociopata","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/wilsoncarvalho.com.br\/index.php\/2020\/09\/29\/a-formacao-do-sociopata\/","title":{"rendered":"A Forma\u00e7\u00e3o do Sociopata"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>A Forma\u00e7\u00e3o do Sociopata. <\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Cr\u00f4nica de Jo\u00e3o Wilson Savino Carvalho selecionada no XII CLIPP &#8211; Concurso Liter\u00e1rio de Presidente Prudente.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Sempre acreditei que as pessoas vivem de esquemas comportamentais. Esses esquemas se formam ao longo da vida, geralmente na adolesc\u00eancia, e eles v\u00eam de filmes que marcaram, de situa\u00e7\u00f5es quotidianas que se repetem e s\u00e3o resolvidas por uma forma tamb\u00e9m repetitiva, enfim, s\u00e3o esquemas comportamentais que passam a fazer parte da vida m\u00ednima de uma pessoa. Por exemplo, um filme americano da \u00e9poca do faroeste em que o her\u00f3i come\u00e7a como um famoso pistoleiro que se tornou um \u201cbebum\u201d por trag\u00e9dias pessoais, e que passa o filme inteiro sendo ridicularizado, mas, ao final, em uma situa\u00e7\u00e3o extrema, para de beber, recobra a coragem e a rapidez no gatilho e liquida todos os bandidos. Quem \u00e9 apreciador de faroestes americanos dos anos sessenta sabe como esse \u00e9 esquema \u00e9 repetitivo. E quantas pessoas que foram jovens nos anos sessenta e que plasmaram muitas de suas rea\u00e7\u00f5es por esse esquema, e passaram a vida deixando as situa\u00e7\u00f5es se tornarem extremas, para s\u00f3 ent\u00e3o reagir e dar o melhor de si.<\/p>\n\n\n\n<p>Outros esquemas bem mais complexos s\u00e3o formados em situa\u00e7\u00f5es igualmente complexas, embora tamb\u00e9m repetitivas. \u00c9 o caso da sociopatia, uma \u201cdoen\u00e7a\u201d da alma que se caracteriza pela incapacidade de introje\u00e7\u00e3o de valores morais e que antes era dita psicopatia, palavra do vocabul\u00e1rio especializado que acabou sedimentada na linguagem comum. Ali\u00e1s, a mudan\u00e7a para \u201csociopatia\u201d tem exatamente o sentido de firmar que o motivo (ou a \u201cculpa\u201d) na dificuldade ou impossibilidade de uma determinada pessoa em introjetar valores morais \u00e9 da sociedade. E como a fam\u00edlia \u00e9 a c\u00e9lula mater do conv\u00edvio social, provavelmente, a principal raz\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 aqui tudo bem. O problema \u00e9 que, para que uma fam\u00edlia determine a impossibilidade de introje\u00e7\u00e3o de valores morais de um de seus membros a um n\u00edvel patol\u00f3gico, \u00e9 preciso que seja essa uma fam\u00edlia \u201cdoente\u201d. E quem sabe, uma c\u00e9lula de uma sociedade doente.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma das figuras mais comuns das novelas brasileiras \u00e9 a do garotinho (ou garotinha) rico e mimado e que se torna extremamente cruel e desalmado por ser levado a acreditar que, para ele, tudo \u00e9 poss\u00edvel (e n\u00e3o \u00e9?). Se um dia, atormenta a bab\u00e1 e todo mundo acha isso engra\u00e7ado, no outro, junto com seus amiguinhos, toca fogo no vira-latas que foi atra\u00eddo para o interior da garagem da mans\u00e3o, e seus pais agem como se aquilo fosse um treinamento para a sua vida de futuro empres\u00e1rio. Adiante, em sua \u201cturminha\u201d de iguais, se por t\u00e9dio come\u00e7am a tocar fogo em mendigos, sempre t\u00eam uma justificativa: qual a \u201cutilidade\u201d desses seres para a sociedade? E o castigo? O mesmo de sempre: perder\u00e3o alguns de seus imensos privil\u00e9gios.<\/p>\n\n\n\n<p>Nas novelas brasileiras \u00e9 tamb\u00e9m muito comum a presen\u00e7a da fam\u00edlia patologicamente contradit\u00f3ria, um clich\u00ea muito significativo e que se desdobra e v\u00e1rios outros inter-relacionados. Todos s\u00e3o muito religiosos, mas desumanos em suas rela\u00e7\u00f5es sociais. Defendem a ecologia, mas jogam o esgoto no c\u00f3rrego, praticam o consumo irrespons\u00e1vel e esnobam os outros com seu poder econ\u00f4mico. O pai tem suas amantes e todos sabem, mas ningu\u00e9m fala. O adolescente faz sua inicia\u00e7\u00e3o sexual com as empregadas dom\u00e9sticas que s\u00e3o imediatamente despedidas e outras situa\u00e7\u00f5es similares. Tudo \u00e9 muito conveniente entre aqueles que n\u00e3o perdem uma missa, mas saem da igreja pisando nas m\u00e3os dos pedintes.<\/p>\n\n\n\n<p>Tudo isso devidamente acobertado por uma legisla\u00e7\u00e3o absurdamente permissiva, extremamente adequada para garantir a impunidade dos garotinhos ricos incendi\u00e1rios ou espancadores, e a utiliza\u00e7\u00e3o dos menores pobres como avi\u00f5ezinhos do narcotr\u00e1fico. Afinal, essa \u00e9 a doen\u00e7a do capitalismo perif\u00e9rico, ou da corruptocracia.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas onde est\u00e1 a fronteira entre uma t\u00edpica fam\u00edlia rica do capitalismo perif\u00e9rico e o clima patol\u00f3gico da forma\u00e7\u00e3o do sociopata? Bom, o capitalismo perif\u00e9rico, por si, j\u00e1 \u00e9 um sistema patol\u00f3gico, \u00e0 medida que representa uma elite restrita que explora e mant\u00e9m iludida com migalhas uma maioria masoquista, e tudo em prol de outra sociedade, a metr\u00f3pole, que \u00e9 um exemplo de tudo o que a sociedade perif\u00e9rica n\u00e3o \u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p>Entretanto, nem todas as fam\u00edlias pequeno-burguesas das sociedades perif\u00e9ricas constituem climas familiares patol\u00f3gicos. H\u00e1 fam\u00edlias burguesas que produzem empres\u00e1rios que expandem a fortuna da fam\u00edlia, m\u00e9dicos de renome, cientistas e intelectuais que aumentam a compreens\u00e3o te\u00f3rica sobre as mazelas sociais. Estas fam\u00edlias est\u00e3o enquadradas nos tr\u00eas crit\u00e9rios b\u00e1sicos que a sociedade aceita para aplicar o r\u00f3tulo de \u201cnormalidade\u201d: fazem o que a m\u00e9dia das fam\u00edlias faz (crit\u00e9rio estat\u00edstico); n\u00e3o agridem a sociedade com suas a\u00e7\u00f5es (crit\u00e9rio da harmonia); vivem razoavelmente felizes, principalmente quando dentro de sua bolha social (crit\u00e9rio do padr\u00e3o m\u00ednimo de felicidade pessoal).<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o qual a diferen\u00e7a dessas fam\u00edlias tipicamente burguesas, para aquelas onde se d\u00e1 uma forma\u00e7\u00e3o patol\u00f3gica? Por que em algumas fam\u00edlias, na mesma sociedade, com as mesmas caracter\u00edsticas, surge um psicopata?<\/p>\n\n\n\n<p>A grande diferen\u00e7a \u00e9 a contradi\u00e7\u00e3o interna, com o produto b\u00e1sico da unidade familiar, a prole que substituir\u00e1 os pais, representando um perigo para a fam\u00edlia burguesa ou para o sistema. Ou seja, o que realmente n\u00e3o \u00e9 admiss\u00edvel \u00e9 a fam\u00edlia autodestrutiva. Filhos insens\u00edveis e que assassinam os pais para antecipar a heran\u00e7a n\u00e3o s\u00e3o admitidos, e mesmo que as penas sejam rid\u00edculas, representam, de toda sorte, uma san\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, e se o garoto cresce ouvindo pai gabar-se de como fraudou o imposto de renda ou deu o golpe nos s\u00f3cios da empresa, ou com a m\u00e3e discorrendo sobre a falsidade de suas amigas, que em seguida recebe com um imenso sorriso e a as mais variadas cortesias? Como ser\u00e1 poss\u00edvel a esse garoto desenvolver ou estabelecer um sistema coerente de valores? Muito simples. Ele desenvolver\u00e1 um sistema onde errado ent\u00e3o n\u00e3o \u00e9 quem desrespeita a lei ou solapa o direito de outrem, mas sim quem \u00e9 pego fazendo isso. E ai a sociedade fica estarrecida com p\u00e9rolas produzidas por sociopatas desse tipo:<\/p>\n\n\n\n<p><em>&#8211; Por que voc\u00eas tocaram fogo no \u00edndio?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>&#8211; Ah! A gente pensava que era s\u00f3 um mendigo&#8230;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Pronto, est\u00e1 devidamente formado o sociopata. E a a\u00ed a grande quest\u00e3o: h\u00e1 retorno, tratamento, terapia de grupo ou qualquer a\u00e7\u00e3o positiva na mudan\u00e7a da situa\u00e7\u00e3o? A resposta \u00e9 n\u00e3o. E isso porque a fam\u00edlia, a \u00fanica inst\u00e2ncia da sociedade que poderia faz\u00ea-lo, n\u00e3o o reconhece como doente. E tampouco se reconhece como doente.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Forma\u00e7\u00e3o do Sociopata. Cr\u00f4nica de Jo\u00e3o Wilson Savino Carvalho selecionada no XII CLIPP &#8211; Concurso Liter\u00e1rio de Presidente Prudente. Sempre acreditei que as pessoas vivem de esquemas comportamentais. 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