{"id":880,"date":"2021-07-30T11:30:57","date_gmt":"2021-07-30T14:30:57","guid":{"rendered":"http:\/\/wilsoncarvalho.com.br\/?p=880"},"modified":"2021-11-09T15:07:34","modified_gmt":"2021-11-09T18:07:34","slug":"880","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/wilsoncarvalho.com.br\/index.php\/2021\/07\/30\/880\/","title":{"rendered":"A era do fakenice, do cancelamento, da lacra\u00e7\u00e3o e do linchamento virtual."},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"933\" height=\"391\" src=\"https:\/\/wilsoncarvalho.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/Gotas-de-Filosofia.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-881\" srcset=\"https:\/\/wilsoncarvalho.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/Gotas-de-Filosofia.jpg 933w, https:\/\/wilsoncarvalho.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/Gotas-de-Filosofia-300x126.jpg 300w, https:\/\/wilsoncarvalho.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/Gotas-de-Filosofia-768x322.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 933px) 100vw, 933px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><strong>A era do <em>fakenice<\/em>, do cancelamento, da lacra\u00e7\u00e3o e do linchamento virtual.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><strong>Wilson Carvalho<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Tempos estranhos esses de agora, em que pessoas se apresentam como ferrenhas defensoras da liberdade e da democracia, mas preferem lacrar em lugar de dialogar, cancelar em vez de ouvir, linchar em lugar de convencer. Se dizem humanistas, mas por nada decidem acabar intelectualmente ou profissionalmente com um ser humano, sem chance de defesa e sem o menor remorso.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Seria engra\u00e7ado se fosse apenas uma modinha entre os adolescentes brincando de participar ativamente da vida pol\u00edtica do pa\u00eds, mas n\u00e3o \u00e9. Muito pelo contr\u00e1rio, \u00e9 uma onda que envolve intelectuais de alto n\u00edvel (pelo menos em termos de titula\u00e7\u00e3o), que aderem efusivamente a ela, como v\u00edtimas de uma adolesc\u00eancia tardia, que, mantendo essa imagem do jovem eternamente aborrecido conseguem encontrar algum sentido em sua vida.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Mas quando participam dessa onda adultos que atuam na educa\u00e7\u00e3o, na arte e na pol\u00edtica, e quando isso atinge e destr\u00f3i vidas de profissionais s\u00e9rios, que do dia para a noite se descobrem foco das mais abjetas acusa\u00e7\u00f5es, sem sequer saber qual foi o erro cometido e sem possibilidade de defesa porque n\u00e3o t\u00eam a melhor chance diante de pessoas que preparam sua via a partir das m\u00eddias digitais, instaura-se um sutil e bizarro autoritarismo.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Sim, estamos entrando alegremente em uma era de autoritarismo e que, como todas que t\u00eam sido impostas ao longo da hist\u00f3ria, esta tamb\u00e9m \u00e9 instaurada em nome dos mais belos conceitos da humanidade, como o amor, a liberdade, a coletividade, etc.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>E n\u00e3o se diga que isso \u00e9 apenas o resultado do cada vez maior acesso das pessoas comuns \u00e0 m\u00eddia, por meio da tecnologia e das redes sociais. Ou que hoje, qualquer pessoa que tenha uma boa criatividade, um corpo maravilhoso, ou alguma habilidade extraordin\u00e1ria, pode tornar-se um \u201c<em>digital influencer<\/em>\u201d e ficar rico por ter milhares de seguidores nas redes sociais.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Claro, isso viabiliza, mas n\u00e3o \u00e9 o ponto fundamental. <em>Fakenews<\/em> (noticias falsas) sempre existiram, embora seu alcance fosse menor. A grande quest\u00e3o \u00e9: porque as pessoas procuram e fazem quest\u00e3o de acreditar nesse tipo de not\u00edcia, que na maioria das vezes nem sequer apresenta coer\u00eancia l\u00f3gica? A resposta \u00e9 simples: porque elas querem acreditar, t\u00eam interesse em acreditar. Principalmente, porque refor\u00e7a o discurso que precisam defender. E a\u00ed n\u00e3o h\u00e1 import\u00e2ncia nenhuma se \u00e9 verdade ou n\u00e3o, se apresenta coer\u00eancia l\u00f3gica ou consist\u00eancia interna. S\u00e3o, para esses interessados, as <em>fakenice <\/em>(belas falsidades).<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Como mostra Foucault, o poder se dilui. De posse de mentiras constru\u00eddas com objetivo torpe, qualquer um pode exercer uma fatiazinha de poder. Eu posso destruir meu rival que est\u00e1 em uma trajet\u00f3ria ascendente acionando blogueiros que est\u00e3o sob meu controle, apenas inventando que h\u00e1 um sentido racista embutido na letra da sua m\u00fasica de maior sucesso, e acabar com ele. Os sofistas de hoje fazem isso com a maior facilidade, e da\u00ed para passar ao \u201ccancelamento\u201d de uma pessoa nas redes sociais (impedindo que se defenda), para em seguida promover o \u201clinchamento virtual\u201d dessa pessoa impunemente. \u00c9 t\u00e3o f\u00e1cil para algu\u00e9m que tem o poder de milhares de seguidores. Nesse processo, quem tem mais poder nas redes sociais, vai adquirindo e mantendo cada vez mais poder.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Nada de novo at\u00e9 aqui. S\u00f3 mudou a velocidade e os titulares do processo. Agora um pol\u00edtico nem precisa mais ser propriet\u00e1rio de uma rede de emissoras e jornais. Mas continua precisando pagar os maiores \u201cdonos\u201d de seguidores nas redes sociais.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Papel fundamental nesse contexto tem o conceito de \u201clacra\u00e7\u00e3o\u201d. Ele explica uma mentalidade que se tornou moda entre os adolescentes e que foi rapidamente assumida por pessoas de m\u00e1 f\u00e9: a necessidade de \u201clacrar\u201d em um debate. De fato, conseguir \u201clacrar\u201d em um debate pode proporcionar a um adolescente carente de reconhecimento uma imensa satisfa\u00e7\u00e3o. Como brincadeira pode ser at\u00e9 engra\u00e7ado. Agora, \u201clacrar\u201d em um debate s\u00e9rio, econ\u00f4mico ou pol\u00edtico, representa a atitude mais contr\u00e1ria e improdutiva que pode existir para a Filosofia e para as Ci\u00eancias Sociais.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>\u00c9 triste quando essa atitude \u00e9 apresentada por um debatedor que se intitula marxista, porque afronta o mais caro conceito do pensamento materialista-dial\u00e9tico, que \u00e9 o conceito de \u201cpr\u00e1xis\u201d. E, de toda sorte, n\u00e3o h\u00e1 nada mais improdutivo, in\u00fatil e enganador em termos de l\u00f3gica e argumenta\u00e7\u00e3o, tanto para a Filosofia como para as ci\u00eancias, como calar o oponente com a pressuposi\u00e7\u00e3o de que seu pr\u00f3prio argumento \u00e9 definitivo, at\u00e9 porque isso n\u00e3o existe, nem para a Filosofia e nem para as ci\u00eancias, que s\u00e3o essencialmente antidogm\u00e1ticas.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>De Plat\u00e3o a Hayek, os grandes pensadores reconhecem que a ci\u00eancia n\u00e3o se confunde com \u201ca verdade\u201d. Cient\u00edfico \u00e9 um procedimento ou conhecimento justificado e assentado em bases confi\u00e1veis, v\u00e1lido para determinadas condi\u00e7\u00f5es. Jamais a verdade \u00fanica, eterna e imut\u00e1vel.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Essa \u00e9 a principal diferen\u00e7a entre os conhecimentos epist\u00eamicos (ci\u00eancia e Filosofia) e os outros tipos de conhecimento, como o senso comum ou como o bom senso. E aqui podemos voltar ao conceito basal do pensamento dial\u00e9tico, a pr\u00e1xis, que \u00e9 essencialmente contradit\u00f3rio quando concebido como processo para alcan\u00e7ar verdades fechadas, imut\u00e1veis e eternas. Confundir \u201cpr\u00e1tica\u201d com \u201cpr\u00e1xis\u201d pode revelar n\u00e3o apenas um conhecimento superficial do materialismo dial\u00e9tico como tamb\u00e9m a m\u00e1-f\u00e9 do argumentador.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Lacrar em debates pelas redes sociais, promover o cancelamento do debatedor cujos argumentos incomodam ou n\u00e3o refor\u00e7am o discurso defendido pelo grupo, incitar o linchamento virtual dos advers\u00e1rios, pode gerar uma imensa sensa\u00e7\u00e3o de poder ao elimin\u00e1-los de um c\u00edrculo (restrito) no mundo virtual. Em compensa\u00e7\u00e3o, o mundo real pode continuar se desenvolvendo em uma dire\u00e7\u00e3o totalmente inesperada, j\u00e1 que vivemos em tempos fluidos. &nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>E a\u00ed a pessoa passa a o per\u00edodo eleitoral todo cancelando advers\u00e1rios nas redes sociais, seu candidato perde as elei\u00e7\u00f5es para o advers\u00e1rio mais improv\u00e1vel do mundo e diz: <em>s\u00f3 pode ter sido fraude! Olho no meu face e s\u00f3 encontro posicionamentos favor\u00e1veis ao meu candidato. Tem algo errado nisso! <\/em>E de fato tem, mas n\u00e3o com a apura\u00e7\u00e3o ou com as urnas. Ou ent\u00e3o a pessoa chama de jumentos os eleitores do vencedor, consolidando a derrota porque continua mantendo a posi\u00e7\u00e3o perdedora, agindo tal como agiram os \u201ccoron\u00e9is de barranco\u201d quando uma imprensa escrita livre come\u00e7ou a amea\u00e7ar seu poder.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ficar nas redes sociais lacrando, cancelando e linchando aqueles que pensam de forma diferente, n\u00e3o s\u00f3 \u00e9 imoral, desumano e mesquinho, como tamb\u00e9m tem se mostrado ineficaz no combate ao autoritarismo que anda rondando o Brasil.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>A solu\u00e7\u00e3o? Um choque de realidade para os que ainda n\u00e3o compreenderam, e um choque de legalidade para os que agem de m\u00e1-f\u00e9.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A era do fakenice, do cancelamento, da lacra\u00e7\u00e3o e do linchamento virtual. 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