{"id":936,"date":"2022-01-22T11:41:56","date_gmt":"2022-01-22T14:41:56","guid":{"rendered":"http:\/\/wilsoncarvalho.com.br\/?p=936"},"modified":"2022-01-22T11:47:33","modified_gmt":"2022-01-22T14:47:33","slug":"gotas-de-filosofia-3","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/wilsoncarvalho.com.br\/index.php\/2022\/01\/22\/gotas-de-filosofia-3\/","title":{"rendered":"Gotas de Filosofia"},"content":{"rendered":"\n<p>O problema social da loucura. Foucault tinha raz\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"933\" height=\"391\" src=\"https:\/\/wilsoncarvalho.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Gotas-de-Filosofia.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-937\" srcset=\"https:\/\/wilsoncarvalho.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Gotas-de-Filosofia.jpg 933w, https:\/\/wilsoncarvalho.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Gotas-de-Filosofia-300x126.jpg 300w, https:\/\/wilsoncarvalho.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Gotas-de-Filosofia-768x322.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 933px) 100vw, 933px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>\u201cA pior das loucuras \u00e9, sem d\u00favida, pretender ser sensato num mundo de loucos\u201d.<\/em> Erasmo de Roterd\u00e3, Elogio da Loucura, 1501.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 imposs\u00edvel, para mim, olhar para um doente mental (ainda posso me referir a ele assim, ou j\u00e1 existe um termo mais atualizado e aprovado para design\u00e1-lo?) sem pensar em Foucault. E por que justamente Foucault? Poderia ser porque ele \u00e9 mais conhecido como o pensador que analisa a sociedade a partir das rela\u00e7\u00f5es de poder e opress\u00e3o, que entende que a verdade nada mais \u00e9 do que o discurso sedimentado ao longo do tempo, que a loucura \u00e9 um conceito historicamente constru\u00eddo, e que os loucos s\u00e3o aqueles que n\u00e3o se encaixam no sistema.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, na verdade, penso em Foucault por conta da minha hist\u00f3ria de vida, afinal, em minha curta exist\u00eancia tive a oportunidade de presenciar algumas das importantes mudan\u00e7as na forma de como a sociedade lida com a loucura. De fato, em minha inf\u00e2ncia, na nossa provinciana Macap\u00e1, o louco era um caso de pol\u00edcia. Em uma \u00e9poca em que crian\u00e7as de sete ou oito anos iam para a escola caminhando, a principal instru\u00e7\u00e3o de defesa que ouviam dos pais era sobre correr pra valer tanto que vissem os conhecidos loucos da cidade, como o \u201ccientista\u201d ou o \u201crubilota\u201d. E havia realmente um deles que costumava correr agressivamente atr\u00e1s das pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje consigo caminhar na orla ao amanhecer, trope\u00e7ando aqui e ali em algum dos loucos que transitam diuturnamente naquele local. N\u00e3o tenho medo deles e sim de pessoas \u201cnormais\u201d que queiram tomar meu celular para trocar na \u201cboca de fumo\u201d mais pr\u00f3xima. O que aconteceu? Mudaram os loucos ou mudamos n\u00f3s?<\/p>\n\n\n\n<p>Acho que mudamos e bastante. Quando fui estudante de Psicologia estagiei em um hospital psiqui\u00e1trico p\u00fablico, onde tive oportunidade de conhecer o \u00faltimo paciente lobotomizado do Par\u00e1. Ainda era bem vis\u00edvel a marca da cirurgia feita no lobo frontal do c\u00e9rebro com o objetivo de retirar dele a agressividade, mas isso o deixou incapacitado para a vida nas ruas, j\u00e1 que todo mundo precisa de um m\u00ednimo de agressividade para poder se defender. Uma situa\u00e7\u00e3o que guardava alguma semelhan\u00e7a com que se passa no romance de Burgess (1962), mais conhecido por conta do filme \u201cLaranja mec\u00e2nica\u201d, de Kubrick (1971), onde o personagem principal \u00e9 \u201ccurado\u201d de sua agressividade patol\u00f3gica por meio de um processo de condicionamento, mas apenas deixa de ser o algoz para tornar-se v\u00edtima.<\/p>\n\n\n\n<p>Nessa \u00e9poca, ainda era diretora do Hospital a Dra. Carmem Rota, a mesma que sofreu agress\u00f5es f\u00edsicas de um paciente quando determinou a abertura da cela em que ele se encontrava preso h\u00e1 anos, mas mesmo assim permaneceu firme em suas convic\u00e7\u00f5es de transformar o \u201cHospital Psiqui\u00e1trico Juliano Moreira\u201d de um hosp\u00edcio-masmorra em um hospital de fato, onde as pessoas sa\u00edssem curadas, e seu maior esfor\u00e7o era no sentido de obter a ajuda da fam\u00edlia e dos amigos do paciente, para que eles n\u00e3o perdessem o conv\u00edvio em sociedade. Essa admir\u00e1vel m\u00e9dica era a mesma que entendia que precisavam eliminar o tratamento a base de eletrochoques, mas reconhecia que o pre\u00e7o do tratamento com os caros medicamentos da \u00e9poca justificava a sua manuten\u00e7\u00e3o. Afinal, com o eletrochoque o paciente superava a crise em quest\u00e3o de dias, enquanto que com as drogas isso levava meses (<em>Ora, na base do choque, at\u00e9 eu ficaria \u201cnormal\u201d rapidinho!<\/em>).<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje ainda se ouve as pessoas comentando sobre o risco que representa o tr\u00e2nsito de loucos pelas ruas, reclamando que essa mudan\u00e7a (na qual o pensamento de Foucault teve papel fundamental) foi para pior. Ocorre que a proposta de mudan\u00e7a na lida com os doentes mentais, conforme o seu embasamento te\u00f3rico, \u00e9 de tratamento ambulatorial do paciente em sociedade. Isso significa que ele n\u00e3o precisa se institucionalizado e muito menos preso, mas precisa tomar regularmente sua medica\u00e7\u00e3o. Assim, n\u00e3o deixa de receber seu necess\u00e1rio tratamento m\u00e9dico e n\u00e3o perde a conviv\u00eancia social essencial para a sanidade mental de qualquer pessoa. <em>\u00d3bvio!<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Mas, o que ocorre na pr\u00e1tica? Vemos pessoas cuja fam\u00edlia assume a responsabilidade com o cuidado, e o doente mental consegue um m\u00ednimo de felicidade pessoal para conviver no meio dos ditos \u201cnormais\u201d, mas vemos tamb\u00e9m uma quantidade inquietante dos ditos \u201cloucos\u201d perambulando andrajosos pelas ruas, causando aqui e ali dist\u00farbios no tr\u00e2nsito, algum inc\u00f4modo sem consequ\u00eancias, mas que n\u00e3o ocorreriam se eles estivessem sendo medicados.<\/p>\n\n\n\n<p>A\u00ed o cerne da quest\u00e3o. Se o pressuposto para o tratamento \u00e9, basicamente, juntar o conv\u00edvio social e familiar com a medica\u00e7\u00e3o, como n\u00f3s podemos esperar que o doente mental, ele mesmo, por sua pr\u00f3pria vontade, se dirija ao sistema ambulatorial p\u00fablico para receber sua medica\u00e7\u00e3o? Se assim o fizesse n\u00e3o estaria louco. Como isso n\u00e3o est\u00e1 acontecendo, \u00e9 de se concluir que o primeiro fator continua falhando. Ou o doente n\u00e3o tem fam\u00edlia e nem amigos, ou essa fam\u00edlia e esses amigos n\u00e3o t\u00eam condi\u00e7\u00f5es de fornecer o apoio e suporte para o sucesso do tratamento. Menos mal que agora pelo menos n\u00e3o est\u00e3o simplesmente presos, como j\u00e1 foi no passado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left\">Quando era estudante aprendi que os crit\u00e9rios para distinguir o comportamento anormal do normal eram basicamente: o crit\u00e9rio estat\u00edstico (se o meu comportamento est\u00e1 dentro da m\u00e9dia do comportamento da popula\u00e7\u00e3o onde vivo, sou normal); o social (se meu comportamento n\u00e3o agride a sociedade na qual convivo, sou normal); e o do m\u00ednimo de felicidade pessoal. Esse \u00faltimo \u00e9 o mais interessante e o mais importante. Sendo assim, posso concluir que, pelo menos a maioria dos loucos que vejo perambulando pelas pra\u00e7as satisfaz o \u00faltimo crit\u00e9rio. Afinal, quem sou eu para dizer que voc\u00ea, que vive atormentado com uma mar\u00e9 de boletos para pagar mensalmente \u00e9 mais feliz que qualquer um deles?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O problema social da loucura. Foucault tinha raz\u00e3o? \u201cA pior das loucuras \u00e9, sem d\u00favida, pretender ser sensato num mundo de loucos\u201d. 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