{"id":953,"date":"2022-03-20T10:10:21","date_gmt":"2022-03-20T13:10:21","guid":{"rendered":"http:\/\/wilsoncarvalho.com.br\/?p=953"},"modified":"2022-03-20T10:10:25","modified_gmt":"2022-03-20T13:10:25","slug":"socrates-e-o-fundamento-da-etica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/wilsoncarvalho.com.br\/index.php\/2022\/03\/20\/socrates-e-o-fundamento-da-etica\/","title":{"rendered":"S\u00f3crates e o fundamento da \u00e9tica"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right\">Por Cesar de Alencar<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"960\" height=\"720\" src=\"https:\/\/wilsoncarvalho.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/Socrates.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-954\" srcset=\"https:\/\/wilsoncarvalho.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/Socrates.png 960w, https:\/\/wilsoncarvalho.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/Socrates-300x225.png 300w, https:\/\/wilsoncarvalho.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/Socrates-768x576.png 768w\" sizes=\"(max-width: 960px) 100vw, 960px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>S\u00f3crates, ao que tudo indica, fez uma descoberta valiosa sobre o comportamento humano. Dizia ele que ningu\u00e9m, quando faz algo, faz o mal voluntariamente. O que isso quer dizer? Quer dizer que todo ser humano age em vista do que acredita ser o melhor. E, por isso, s\u00f3 poderia fazer algo de mal se fosse obrigado por fatores que independem de sua vontade.<\/p>\n\n\n\n<p>Refletir sobre essa afirma\u00e7\u00e3o \u00e9, por certo, a primeira grande tarefa do campo de estudos que em filosofia chamou-se <em>\u00c9tica<\/em>. O termo vem do grego <em>\u00e9thos<\/em>, que significa o car\u00e1ter moldado pelo h\u00e1bito e pelo costume, certa disposi\u00e7\u00e3o de alma para se comportar de um determinado modo, influenciada, sobretudo, pelas a\u00e7\u00f5es cristalizadas com a rotina e o pensamento. Na \u00c9tica, est\u00e1 em quest\u00e3o o modo pelo qual as pessoas escolhem fazer certas coisas, sempre levando em considera\u00e7\u00e3o a cultura como determinante para a cria\u00e7\u00e3o do car\u00e1ter.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando S\u00f3crates descobre o fundamento da disposi\u00e7\u00e3o que temos para tomar decis\u00f5es, ele estava fundando esse tipo de estudo. Porque n\u00e3o faz parte da \u00c9tica, a princ\u00edpio, a maneira pela qual o humano age <em>condicionado <\/em>ou<em> determinado<\/em>, sobretudo no que diz respeito \u00e0 natureza e \u00e0 biologia. Para a \u00c9tica, n\u00f3s fazemos escolhas com base em concep\u00e7\u00f5es, e essas orientam nossas a\u00e7\u00f5es frente \u00e0quilo que reputamos ser o melhor para a nossa vida.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa considera\u00e7\u00e3o acerca do que nos aparece como o melhor a ser feito \u00e9, ao que se v\u00ea, <em>irresist\u00edvel<\/em>. Voc\u00ea pode tentar imaginar uma situa\u00e7\u00e3o na qual suas escolhas estariam baseadas no fim de fazer o que fosse pior, e ainda assim voc\u00ea encontrar\u00e1 como resposta a conclus\u00e3o de que isso jamais guiar\u00e1 suas escolhas a menos que voc\u00ea o encare como algo bom e digno de ser feito, em alguma medida.<\/p>\n\n\n\n<p>Podemos, com isso, entender porque, para S\u00f3crates, o maior dos males \u00e9 a ignor\u00e2ncia. Afinal, se nossas escolhas se fazem orientadas por nossas concep\u00e7\u00f5es acerca do que \u00e9 o melhor a ser feito, n\u00e3o saber se o que concebemos \u00e9 ou n\u00e3o de fato o melhor a ser feito pode resultar em toda uma vida de ilus\u00e3o e engano. A quest\u00e3o da exist\u00eancia, e da vida que levamos, est\u00e1 posta em primeiro plano quando se trata de \u00c9tica, e para isso a avalia\u00e7\u00e3o do nosso saber \u00e9 imprescind\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>Agora se pergunte \u2013 como saber o que \u00e9 bom de verdade, se ignorarmos a mais fundamental das necessidades humanas, a de saber o que \u00e9 o melhor? Naturalmente, o que \u00e9 desej\u00e1vel a um n\u00e3o o \u00e9 para outro, e as pessoas desejam coisas distintas e por isso t\u00eam vidas distintas, sendo diferentes entre si. Mas a <em>postura \u00e9tica<\/em> que nos \u00e9 comum deve se iniciar por uma <em>consci\u00eancia<\/em> de que escolhemos com base em concep\u00e7\u00f5es, ainda que mal saibamos de onde elas vieram.<\/p>\n\n\n\n<p>Estar ciente desse problema faz o ser humano buscar para si uma maior clareza quanto ao que ele deseja, quanto ao que verdadeiramente lhe far\u00e1 bem e ao que, ao contr\u00e1rio, ainda que se mostre como um bem, acabe n\u00e3o sendo bom ao final. A <em>postura \u00e9tica<\/em>, nesse sentido, depende fundamentalmente de uma busca pelo saber \u2013 tarefa a que todo fil\u00f3sofo se dedica.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas n\u00e3o deveria ser uma tarefa apenas <em>do<\/em> fil\u00f3sofo. \u00c9 certo que nem todo mundo tem a coragem e disposi\u00e7\u00e3o para sentir a ang\u00fastia da incerteza, causada pela iniciativa de avaliar nossas concep\u00e7\u00f5es. Mesmo Descartes, que na Hist\u00f3ria da Filosofia \u00e9 o exemplo mais retumbante de algu\u00e9m disposto a se p\u00f4r em d\u00favida sobre tudo, formulou uma moral provis\u00f3ria para si, com o intuito de <em>guiar suas a\u00e7\u00f5es<\/em> enquanto buscava convic\u00e7\u00e3o maior para suas concep\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Parece que, enquanto seres que agem e que precisam tomar decis\u00f5es di\u00e1rias, n\u00e3o podemos esperar ter certezas sobre tudo para tomarmos uma decis\u00e3o. Fora isso, para Arist\u00f3teles, essa certeza buscada por Descartes era inalcan\u00e7\u00e1vel. O \u00e2mbito da atua\u00e7\u00e3o humana \u00e9 movedi\u00e7o e perigoso, raramente estamos convictos de fazer o que \u00e9 realmente certo e bom. J\u00e1 que estamos em um mundo onde tudo \u00e9 <em>relativo<\/em>, o que significa dizer que nada \u00e9 <em>absolutamente<\/em> bom ou mal, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel ter certezas na esfera dos dilemas humanos.<\/p>\n\n\n\n<p>Com a descoberta socr\u00e1tica a que aludimos, podemos obter ao menos a orienta\u00e7\u00e3o sobre aquilo que n\u00f3s, seres dotados de <em>\u00e9thos<\/em>, desejamos com certa const\u00e2ncia, por meio de <em>h\u00e1bitos<\/em> que quase sempre n\u00e3o s\u00e3o conscientes, mas que tendem a indicar aspectos de nossa <em>personalidade<\/em> \u00e0 medida que refletimos sobre as concep\u00e7\u00f5es pelas quais assumimos certas escolhas como melhores. Esse olhar debru\u00e7ado sobre n\u00f3s e nossas escolhas n\u00e3o \u00e9, obviamente, todo o percurso de investiga\u00e7\u00e3o almejado pela \u00c9tica \u2013 mas \u00e9 seu ponto de partida pessoal e existencial.<\/p>\n\n\n\n<p>A condi\u00e7\u00e3o existencial da alma humana \u2013 ser condicionada a escolher sempre o que lhe parece o melhor a ser feito \u2013 soa, no fundo, como negativa \u2013 ou seja, n\u00e3o ficamos sabendo, por meio dela, o que de fato \u00e9 o melhor a ser feito, mas apenas que, na hora de agir, optamos em fazer o que reputamos ser melhor. Mas se n\u00e3o alcan\u00e7amos com isso o que \u00e9 bom de verdade, j\u00e1 estamos de posse do que h\u00e1 de mais pr\u00f3ximo \u00e0 verdade sobre o assunto. Afinal, n\u00e3o \u00e9 a maior das ignor\u00e2ncias ignorarmos aquilo que j\u00e1 dever\u00edamos saber?<\/p>\n\n\n\n<p><em>*O presente texto \u00e9 parte integrante do livro <\/em>Li\u00e7\u00f5es Socr\u00e1ticas<em>, que pode ser acessado pelo link: <\/em><a href=\"https:\/\/www2.unifap.br\/editora\/files\/2021\/07\/licoes-socraticas.pdf\"><em>https:\/\/www2.unifap.br\/editora\/files\/2021\/07\/licoes-socraticas.pdf<\/em><\/a><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Para refletir<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Um dos dilemas morais que se tornou rotineiro em uma vida mergulhada em redes sociais, como a nossa, diz respeito aos impactos negativos da cultura do cancelamento \u2013 uma variante tanto do problema do acesso e da checagem de informa\u00e7\u00f5es quanto do <em>paradoxo da toler\u00e2ncia<\/em>, do fil\u00f3sofo Karl Popper: afinal, deve-se, de todos os modos poss\u00edveis, impedir que algu\u00e9m tenha liberdade de dizer algo depois de ele ter dito algo que n\u00e3o deveria dizer?<\/p>\n\n\n\n<p>Os casos recentes do apresentador Monark, que deixou de fazer parte do <em>FlowPodcast<\/em> ap\u00f3s assumir a posi\u00e7\u00e3o em defesa da exist\u00eancia de um partido nazista no Brasil, e do cantor Nego do Borel, expulso do programa <em>A fazenda 13<\/em> sob acusa\u00e7\u00e3o de ass\u00e9dio, s\u00e3o alguns das centenas de casos que ilustram a viol\u00eancia com que se pode infligir puni\u00e7\u00f5es a quem, eventual ou sistematicamente, tenha ultrapassado os limites do bom senso.<\/p>\n\n\n\n<p>O que rapidamente <em>viraliza<\/em> nas redes e m\u00eddias sociais, contudo, raramente passa pelo cauteloso crivo da checagem das informa\u00e7\u00f5es. Um v\u00eddeo editado ou uma fala retirada de contexto s\u00e3o suficientes para desencadear um fen\u00f4meno de linchamento que ecoa os rituais de bode expiat\u00f3rio, t\u00e3o amplamente descritos como rotineiros pelos estudos de antropologia \u2013 com o agravante de, agora, qualquer um poder ser a v\u00edtima escolhida da sede de vingan\u00e7a da massa digital. Isso mostra que a cultura do cancelamento, ainda que apele ao anseio humano de vingan\u00e7a coletiva contra algo que lhe fere e adoece, tende a escapar da tarefa, tamb\u00e9m demasiado humana, de ponderar os discursos e de avaliar os fatos. Seguir a manada pode dar uma sensa\u00e7\u00e3o boa de justi\u00e7a, mas a sensa\u00e7\u00e3o nem sempre corresponde ao que esperamos que seja o verdadeiramente justo.<\/p>\n\n\n\n<p>Diante disso, nossa primeira rea\u00e7\u00e3o deveria ser a da n\u00e3o-a\u00e7\u00e3o: ou seja, \u00e9 preciso, antes de assumirmos o ataque ou a defesa de algu\u00e9m ou de uma causa, sabermos quais s\u00e3o os fatos e as ideias ali implicados. N\u00e3o seguir simplesmente o calor do linchamento coletivo aparece, socraticamente falando, como a a\u00e7\u00e3o \u00e9tica mais adequada. \u00c9 preciso saber o que est\u00e1 em jogo, porque ao inv\u00e9s de agirmos com justi\u00e7a, poderemos cometer a pior das injusti\u00e7as \u2013 a que elege uma v\u00edtima inocente para descarregar nossa sede de vingan\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Naturalmente, a posi\u00e7\u00e3o que impede, de todas as formas poss\u00edveis, algu\u00e9m de poder dizer algo, porque algo que ele disse n\u00e3o pode ser tolerado, \u00e9 t\u00e3o ou mais intolerante que a fala intoler\u00e1vel. Existe responsabilidade jur\u00eddica pelo que se faz ou se diga, mas o cancelamento virtual procura fazer justi\u00e7a com as pr\u00f3prias m\u00e3os. Todos se sentem bem ou mal justiceiros em luta pelo bem comum \u2013 sem perceber que o bem comum \u00e9, sobretudo, fundamentado na toler\u00e2ncia do outro como digno do mesmo respeito pelo qual espera ser tratado.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 por esse motivo que a filosofia, desde a descoberta socr\u00e1tica, procura mostrar que nenhuma atitude \u00e9 eticamente v\u00e1lida se n\u00e3o for exercida com pondera\u00e7\u00e3o e an\u00e1lise. O acesso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o pode parecer fabuloso, e de fato o \u00e9, mas ele demanda ainda mais nosso esfor\u00e7o para n\u00e3o crermos em tudo o que \u00e9 dito e editado. As opini\u00f5es, sendo sempre relativas, exigem que se saiba avali\u00e1-las bem a fim de poder tomar as melhores decis\u00f5es. Se raramente estamos certos do que devemos e dever\u00edamos fazer em muitas situa\u00e7\u00f5es da nossa vida, ter tanta certeza assim sobre outras vidas parece insensatez. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Cesar de Alencar S\u00f3crates, ao que tudo indica, fez uma descoberta valiosa sobre o comportamento humano. Dizia ele que ningu\u00e9m, quando faz algo, faz o mal voluntariamente. O que isso quer dizer? Quer dizer que todo ser humano age em vista do que acredita ser o melhor. 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