{"id":957,"date":"2022-03-27T18:44:08","date_gmt":"2022-03-27T21:44:08","guid":{"rendered":"http:\/\/wilsoncarvalho.com.br\/?p=957"},"modified":"2022-03-27T18:44:12","modified_gmt":"2022-03-27T21:44:12","slug":"desmedidamente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/wilsoncarvalho.com.br\/index.php\/2022\/03\/27\/desmedidamente\/","title":{"rendered":"<strong>DESMEDIDAMENTE<\/strong>"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Geovane Rogers C. Nascimento<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"903\" height=\"342\" src=\"https:\/\/wilsoncarvalho.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/image.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-959\" srcset=\"https:\/\/wilsoncarvalho.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/image.png 903w, https:\/\/wilsoncarvalho.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/image-300x114.png 300w, https:\/\/wilsoncarvalho.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/image-768x291.png 768w\" sizes=\"(max-width: 903px) 100vw, 903px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>DESMEDIDAMENTE<\/p>\n\n\n\n<p>O homem, como um ser social, inevitavelmente, faz parte da esp\u00e9cie que mais mede e pesa no planeta. Nesse contexto, \u00e9 not\u00f3rio que n\u00e3o podemos nos dar ao luxo de negligenciarmos tal fato, pois avaliar possibilidades parece mesmo ser nossa sina. Assim, aquele que nada mede, vive irremediavelmente sob a medida dos outros. O que nos leva a um questionamento important\u00edssimo: como saber ent\u00e3o, se as medidas que fazemos do mundo a nossa volta s\u00e3o, em \u00faltima inst\u00e2ncia, as mais favor\u00e1veis ao desenvolvimento de uma vida plena e justa?\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse sentido, um velho eremita, h\u00e1 d\u00e9cadas recluso em sua gruta no alto do monte, depois de meditar incansavelmente, medindo e avaliando os pr\u00f3s e contras daquilo que imaginava j\u00e1 ter compreendido sobre a vida e o mundo e, at\u00e9 mesmo, sobre coisas que sequer sua trena era capaz de aferir, resolveu assim do nada, dar um pulo at\u00e9 o mundo civilizado. N\u00e3o, n\u00e3o pensem voc\u00eas, que foi para dar um trato na barba; ou quem sabe at\u00e9, degustar aquele sorvete despreocupadamente, ap\u00f3s tanto tempo no isolamento. N\u00e3o vamos nos iludir, pois bem sabemos que esse tipo de gente n\u00e3o se prende a coisas desse tipo, n\u00e3o \u00e9 mesmo?<\/p>\n\n\n\n<p>Ora, e o que teria levado ent\u00e3o o pobre velho a regressar a este mundo, visto assim por ele t\u00e3o indigno e desmedido? \u00c9 que, tragicamente, ao inv\u00e9s do coitado ter encontrado paz e tranquilidade em seu retiro espiritual, o transmundano se via mesmo era diante de um paradigma infernal. Pois imaginem voc\u00eas que quanto mais ele tentava fugir do mundo, mais ainda o mundo se apresentava a ele como um terr\u00edvel inquisidor a question\u00e1-lo, como se o infeliz n\u00e3o passasse apenas de um reles herege maldito, com o intuito \u00fanico de defecar no pr\u00f3prio mundo. Parecia mesmo uma luta ingl\u00f3ria, essa do velho da trena moral.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, ao fazermos uso das mesmas ferramentas lapidadas pelo confuso ermit\u00e3o, onde a medida e a desmedida s\u00e3o vistas como chaves essenciais aos caminhos que levam ao c\u00e9u, ou ao inferno, podemos dizer ent\u00e3o, que o pobre homem, ao se despir das coisas do mundo e fazer de ref\u00fagio uma gruta, na qual a m\u00e1xima basilar do Or\u00e1culo de Delfos \u201cconhece-te a ti mesmo\u201d infelizmente n\u00e3o habitava, findou levando consigo, indubitavelmente, tudo aquilo que mais queria ter deixado para tr\u00e1s, haja vista ser praticamente imposs\u00edvel fugir do mundo sem que se leve este como bagagem na mochila. Dir\u00edamos at\u00e9 que \u00e9 como tentar fugir da pr\u00f3pria sombra em um belo dia de sol a c\u00e9u aberto.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;O que nos leva a concluir, a partir disso, que a situa\u00e7\u00e3o do prot\u00f3tipo de santo n\u00e3o deixava mesmo de ser ic\u00f4nica, pois se via gr\u00e1vido do mundo, sem poder purgar ou parir o rebento. Ah! Quanto sentido faz agora o Negro Drama apresentado pelos Racionais MC\u2019s, quando o Mano Brown diz que \u201co dinheiro tira um homem da mis\u00e9ria, mas n\u00e3o pode arrancar de dentro dele a favela\u201d e que \u201ca alma guarda o que a mente tenta esquecer\u201d? \u00c9, parece mesmo que determinadas coisas coexistem t\u00e3o intimamente associadas umas \u00e0s outras, que est\u00e3o fadadas a vagar por toda a eternidade de m\u00e3os dadas. Pobre velho da trena, com todo aquele para\u00edso t\u00e3o belamente idealizado, mas miseravelmente, sem conseguir desvencilha-se do inferno interior que carregava em suas pr\u00f3prias entranhas.&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o, meus caros, qual a exata medida que leva o homem do c\u00e1rcere a liberdade ou vice-versa? Ser\u00e1 que esta t\u00eanue medida, n\u00e3o pode estar apenas a uma ideia de dist\u00e2ncia? Ser\u00e1 mesmo que estamos fadados a, desgra\u00e7adamente, s\u00f3 descortinarmos os enigmas do mundo e da vida a partir das tais p\u00edlulas, ficticiamente apresentadas em Matrix? Nosso esquel\u00e9tico amigo eremita, por exemplo, n\u00e3o conseguiu compreender ainda que um santo, inexoravelmente, \u00e9 constru\u00eddo artesanalmente a partir da m\u00e3o-de-obra-bruta dos \u201cn\u00e3o santos\u201d, e que a eternidade, dependendo da aferi\u00e7\u00e3o que se fa\u00e7a dela, pode ser apenas uma ilus\u00e3o, ou at\u00e9 quem sabe, o \u00fanico caminho destinado a todos, independentemente do grau de santidade ou n\u00e3o.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, diante de tamanha desmedida, n\u00e3o me perguntem mais sobre o que teria acontecido com nosso desorientado ermit\u00e3o. Pois n\u00e3o sei se perceberam, mas ele nunca foi o fiel da balan\u00e7a em nossa prosa, quando muito, um simples transporte necess\u00e1rio. Cabe aqui lembrar Plat\u00e3o, que em um de seus discursos mais extraordin\u00e1rio, cujo fio condutor tem como tema principal a imortalidade da alma, onde F\u00e9don, ao narrar o contexto dos acontecimentos sobre a morte de S\u00f3crates, nos convida a refletir tamb\u00e9m sobre a temperan\u00e7a que devemos buscar com quest\u00f5es como vida, morte, verdade, prazeres, vaidade, justi\u00e7a, conhecimento etc.<\/p>\n\n\n\n<p>Portanto, a cicuta meus caros, como transporte fat\u00eddico, s\u00f3 conseguiu levar do homem, aquilo que ele possu\u00eda de org\u00e2nico e que inevitavelmente, se deterioraria mesmo um dia, porque as belezas expostas por ele, sobre o contexto que comp\u00f5e as paisagens da vida e do mundo para al\u00e9m do carbono, essas, continuam vivas e pulsantes a germinar pesos e medidas, desmedidamente.<\/p>\n\n\n\n<p>Como? Miseric\u00f3rdia! Voc\u00eas ainda alimentam a infeliz expectativa, sobre uma poss\u00edvel apresenta\u00e7\u00e3o aqui, das tais formulas capazes de orientar o homem na condu\u00e7\u00e3o da vida? Sinto muito decepciona-los sobre essa quest\u00e3o, dado que tal manual \u00e9 de uma singularidade imposs\u00edvel, j\u00e1 que a forma como cada indiv\u00edduo lida com a pr\u00f3pria vida e compreende o mundo a sua volta, \u00e9 totalmente distinta uma da outra, n\u00e3o sendo poss\u00edvel assim, uma \u00fanica medida capaz de orientar a todos de uma s\u00f3 vez.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o, infelizmente, teremos que nos contentar com as chaves que foram distribu\u00eddas ao longo de nossa viagem, cabendo-nos em \u00faltima inst\u00e2ncia, fazermos nossas pr\u00f3prias aferi\u00e7\u00f5es, no sentido de abrirmos as portas. Mas, sem esquecermos em hip\u00f3tese alguma, que para cada porta que se abre, consequentemente, outras tantas se fecham. Ou seja, a liberdade conseguida em um instante, pode muito bem caracterizar tamb\u00e9m a pris\u00e3o no momento seguinte.<\/p>\n\n\n\n<p>E, principalmente, que ao fazermos uso de nossas trenas, ao avaliarmos as justezas de nossas rela\u00e7\u00f5es com a vida e o mundo, que n\u00e3o esque\u00e7amos tamb\u00e9m de observar onde est\u00e3o alicer\u00e7adas as verdades das quais nos alimentamos e que, inevitavelmente, ser\u00e3o o fiel da balan\u00e7a das tais trenas. Pois nada pode ser pior \u00e0quele que busca uma vida justa, de que edificar sua zona de conforto justamente sobre o desconforto de outrem.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse sentido, na Apologia de S\u00f3crates, o bom fil\u00f3sofo nos orienta \u201cque uma vida n\u00e3o examinada n\u00e3o \u00e9 digna de ser vivida\u201d. Isso dito, tanto a Apologia de S\u00f3crates quanto o Discurso do F\u00e9don, ambas, obras de Plat\u00e3o, al\u00e9m de nos trazerem inspira\u00e7\u00e3o para o trato que devemos ter com a vida, tamb\u00e9m contextualizam muito do que acabamos de expor.&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Geovane Rogers C. Nascimento DESMEDIDAMENTE O homem, como um ser social, inevitavelmente, faz parte da esp\u00e9cie que mais mede e pesa no planeta. Nesse contexto, \u00e9 not\u00f3rio que n\u00e3o podemos nos dar ao luxo de negligenciarmos tal fato, pois avaliar possibilidades parece mesmo ser nossa sina. Assim, aquele que nada mede, vive irremediavelmente sob a [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-957","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-sem-categoria"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/wilsoncarvalho.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/957"}],"collection":[{"href":"https:\/\/wilsoncarvalho.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/wilsoncarvalho.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/wilsoncarvalho.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/wilsoncarvalho.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=957"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/wilsoncarvalho.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/957\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":960,"href":"https:\/\/wilsoncarvalho.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/957\/revisions\/960"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/wilsoncarvalho.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=957"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/wilsoncarvalho.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=957"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/wilsoncarvalho.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=957"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}