{"id":963,"date":"2022-05-02T16:32:00","date_gmt":"2022-05-02T19:32:00","guid":{"rendered":"http:\/\/wilsoncarvalho.com.br\/?p=963"},"modified":"2022-05-02T16:32:04","modified_gmt":"2022-05-02T19:32:04","slug":"o-caso-do-professor-do-curriculo-turbinado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/wilsoncarvalho.com.br\/index.php\/2022\/05\/02\/o-caso-do-professor-do-curriculo-turbinado\/","title":{"rendered":"<strong>O caso do professor do curr\u00edculo turbinado<\/strong>"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Wilson Carvalho<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1012\" height=\"494\" src=\"https:\/\/wilsoncarvalho.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/GotasProfessor.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-964\" srcset=\"https:\/\/wilsoncarvalho.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/GotasProfessor.png 1012w, https:\/\/wilsoncarvalho.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/GotasProfessor-300x146.png 300w, https:\/\/wilsoncarvalho.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/GotasProfessor-768x375.png 768w\" sizes=\"(max-width: 1012px) 100vw, 1012px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Tomo contato pelos telejornais de mais um caso de profissional de n\u00edvel superior que consegue aqui exercer profiss\u00f5es de extrema responsabilidade t\u00e9cnica, sem comprovar a devida qualifica\u00e7\u00e3o ou registro. A primeira quest\u00e3o e que me leva a refletir \u00e9: por que algu\u00e9m faz isso? S\u00f3crates sintetizava o valor moral do conhecimento em uma frase: o homem erra porque n\u00e3o tem o conhecimento da extens\u00e3o das consequ\u00eancias de seu erro. Seria o caso?<\/p>\n\n\n\n<p>O Amap\u00e1, por sua situa\u00e7\u00e3o de isolamento geogr\u00e1fico, e pela car\u00eancia de t\u00e9cnicos de n\u00edvel superior, sempre padeceu na m\u00e3o de farsantes. Tivemos aqui um desfile de m\u00e9dicos que n\u00e3o eram m\u00e9dicos, psic\u00f3logos, economistas, e at\u00e9 advogados que n\u00e3o passavam de r\u00e1bulas e aqui ganharam bastante dinheiro antes de sumir no oco do mundo. Eu mesmo, quando era dono de um bar na praia da Fazendinha empreguei um gar\u00e7om que se dizia psic\u00f3logo injusti\u00e7ado por ter trabalhado quase um ano numa institui\u00e7\u00e3o assistencial e exonerado por intrigas de pessoas invejosas. Ele n\u00e3o sabia que eu era formado em psicologia, e tanto que come\u00e7amos a conversar sobre alguns conceitos b\u00e1sicos, ele acabou confessando que era um \u201cpsic\u00f3logo pr\u00e1tico\u201d, que se sentia capaz de resolver problemas psicol\u00f3gicos das pessoas, e que soube que em Macap\u00e1 havia car\u00eancia desse profissional, e por isso decidiu se apresentar como um psic\u00f3logo cujo diploma ainda estava em tr\u00e2mite, argumento que lhe rendeu quase um ano de sal\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto ele me contava sua hist\u00f3ria, eu ficava lembrando um amigo rec\u00e9m-formado que ficou cerca de seis meses sobrevivendo como taxista enquanto saia o registro de seu diploma. Ele era uma pessoa reconhecidamente correta, todos sabiam que ele tinha se deslocado para Bel\u00e9m a duras penas para obter uma forma\u00e7\u00e3o superior, recebia bolsa do Governo do TFA e cr\u00e9dito educativo, mas para ele n\u00e3o houve exce\u00e7\u00e3o. Para o desconhecido \u201cpsic\u00f3logo\u201d sim. Airton Portela, um amigo estudante de direito, hoje juiz federal, me explicou o que ele chamava de \u201cs\u00edndrome do sobrenome estrangeiro\u201d. Dizia que a gente passa por uma divulga\u00e7\u00e3o da palestra do \u201cDr. Silva\u201d e nem d\u00e1 bola. Mas se estiver escrito que \u00e9 do \u201cDr. Zarolhokovisky\u201d, a\u00ed voc\u00ea d\u00e1 aten\u00e7\u00e3o. E eu me pergunto por que agimos assim.<\/p>\n\n\n\n<p>Como n\u00e3o poderia ser diferente, no per\u00edodo de pioneirismo de nossa universidade tivemos tamb\u00e9m professores que surgiram como a salva\u00e7\u00e3o da p\u00e1tria, mas s\u00f3 serviram para atrapalhar, e o caso do \u201cprofessor do curr\u00edculo turbinado\u201d \u00e9 talvez a hist\u00f3ria mais emblem\u00e1tica da luta que tem sido a composi\u00e7\u00e3o dos quadros da UNIFAP, desde o primeiro processo seletivo de docentes, ainda em 1991, o ano de implanta\u00e7\u00e3o da nossa primeira IFES.<\/p>\n\n\n\n<p>O cara foi, disparado, o primeiro colocado, inclusive com uma pontua\u00e7\u00e3o tr\u00eas vezes superior a minha, que a essa altura j\u00e1 possu\u00eda duas gradua\u00e7\u00f5es, especializa\u00e7\u00e3o e t\u00edtulo de mestre, al\u00e9m de razo\u00e1vel experi\u00eancia no magist\u00e9rio superior. Ainda bem que n\u00e3o concorri com ele, que, segundo o curr\u00edculo apresentado para a sele\u00e7\u00e3o, possu\u00eda t\u00edtulos de Mestre e Doutor obtido em uma universidade do Michigan, falava onze idiomas e v\u00e1rios dialetos, tinha vast\u00edssima experi\u00eancia no magist\u00e9rio jur\u00eddico, na \u00e1rea diplom\u00e1tica, jornal\u00edstica e de marketing. At\u00e9 brev\u00ea, na categoria de piloto privado, o cidad\u00e3o ostentava.<\/p>\n\n\n\n<p>Para alguns, foi um excelente mestre. Para outros, que s\u00f3 posteriormente confessaram \u201csempre ter desconfiado\u201d, seu conhecimento jur\u00eddico era apenas de r\u00e1bula. Eu, para falar a verdade, nunca desconfiei, at\u00e9 porque sempre que conversava com ele, acabava impressionado pela sua vasta e variada cultura, sua flu\u00eancia em ingl\u00eas e com a perfei\u00e7\u00e3o de sua express\u00e3o em vern\u00e1culo.<\/p>\n\n\n\n<p>Poderia ter ficado muito tempo advogando e lecionando na UNIFAP, por\u00e9m seu ego agigantado foi sua perdi\u00e7\u00e3o. Alunos me procuraram para reclamar que ele os humilhava, atirando uma c\u00f3pia encadernada de seu imenso curr\u00edculo em cima da mesa, e frequentemente zombava de seus colegas, embora fossem todos ju\u00edzes, promotores, e advogados muito bem sucedidos. Pra completar, se inscreveu em um concurso de magistratura, foi aprovado na prova escrita e exclu\u00eddo na prova oral (segundo ele) porque teria tentado demonstrar que seus examinadores estavam errados.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, n\u00e3o demorou muito que come\u00e7assem a surgir hist\u00f3rias colocando em d\u00favida todo esse cabedal de conhecimentos. Por que n\u00e3o providenciava a sua regulariza\u00e7\u00e3o junto \u00e0 OAB local, se praticava advocacia regularmente? Por que n\u00e3o apresentava seu diploma de bacharel em direito, insistindo em apresentar uma certid\u00e3o, cuja validade sempre foi por prazo limitado? Al\u00e9m desses ind\u00edcios, realmente preocupantes, corriam muitas hist\u00f3rias, ainda que aparentemente fantasiosas, como a de que teria sido mandado aos EUA para estudar t\u00e9cnicas de manipula\u00e7\u00e3o de massas, pela ditadura militar, e que por isso havia cursado doutorado sem ser sequer bacharel.<\/p>\n\n\n\n<p>Aliado a isso, havia o movimento estudantil da UNIFAP, concentrado principalmente nos cursos de hist\u00f3ria e geografia, que lutava pela elei\u00e7\u00e3o direta para reitor, e que era apoiado discretamente por um pequeno grupo de professores (n\u00e3o havia quadro docente, e os professores provis\u00f3rios n\u00e3o podiam entrar em greve). Esse movimento, que acabou sendo apoiado maci\u00e7amente pelos estudantes quando do confronto com a segunda reitora pro-tempore (nomeada em um contexto de inequ\u00edvoca inger\u00eancia pol\u00edtico-partid\u00e1ria na Universidade), utilizou-se de uma estrat\u00e9gia muito eficaz, um boicote sistem\u00e1tico ao Conselho Superior de Implanta\u00e7\u00e3o (CONSIMP), o que deixou a in\u00e1bil gestora e seu <em>staff<\/em> em uma situa\u00e7\u00e3o de completo isolamento, a tal ponto que a \u00e1rea acad\u00eamica restou dirigida pelos coordenadores de cursos, que, como indicados pelos colegiados com representa\u00e7\u00e3o discente, eram reconhecidos pelo movimento estudantil.<\/p>\n\n\n\n<p>A reitora, acuada, precisava de um factoide para desviar as aten\u00e7\u00f5es. O caso do tal professor viria a calhar: instaurou uma comiss\u00e3o de PAD a ser presidida pelo Coordenador do Curso de Direito, e composta com o Coordenador do Curso de Hist\u00f3ria e com um t\u00e9cnico de n\u00edvel superior.<\/p>\n\n\n\n<p>Tentei alegar amizade pessoal com o investigado, para esquivar-me dessa tarefa nada agrad\u00e1vel, sem sucesso, afinal, o cidad\u00e3o morava em Macap\u00e1 h\u00e1 pouco mais de um ano. Reuni a Comiss\u00e3o e iniciamos o trabalho pela an\u00e1lise da documenta\u00e7\u00e3o. Havia uma fartura de ind\u00edcios, mas nenhuma prova. Conversei com alguns professores do curso de Direito e ouvi recomenda\u00e7\u00f5es inesquec\u00edveis, tipo: <em>\u201cquando o sujeito precisa dizer o tempo todo quem ele \u00e9, \u00e9 porque na realidade \u00e9 um ningu\u00e9m\u201d<\/em>. O professor Carlos Renato, na \u00e9poca juiz do trabalho, que tinha uma bela hist\u00f3ria de embate com a ditadura no movimento estudantil paraense, al\u00e9m de uma enorme cultura liter\u00e1ria, e por isso eu o admirava muito, me fez uma coloca\u00e7\u00e3o interessante: <em>\u201cningu\u00e9m se torna uma farsa da noite para o dia. A coisa vai acontecendo aos poucos, e quando o sujeito v\u00ea, est\u00e1 num caminho sem volta\u201d<\/em>. Com isso, decidi que n\u00e3o deixaria o trabalho inconcluso.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas depois de tatear infrutiferamente para obter provas concretas sobre o caso, fui obrigado a colocar a reitora contra a parede: n\u00e3o havia como produzir provas s\u00f3 analisando a documenta\u00e7\u00e3o apresentada pelo pr\u00f3prio investigado. E assim fui enviado ao Rio de Janeiro onde consegui localizar o cart\u00f3rio no qual havia sido feita a tradu\u00e7\u00e3o juramentada dos t\u00edtulos e a autentica\u00e7\u00e3o da certid\u00e3o (at\u00e9 a rua j\u00e1 havia mudado de nome), mas as pessoas ainda se lembravam de um funcion\u00e1rio do cart\u00f3rio que apresentava todas as caracter\u00edsticas do nosso personagem. Localizei tamb\u00e9m o autor da assinatura da certid\u00e3o, que demonstrou, na minha frente, ser canhoto, e que me deu uma declara\u00e7\u00e3o de pr\u00f3prio punho, de jamais ter emitido tal certid\u00e3o. Trouxe tamb\u00e9m o hist\u00f3rico escolar, onde estava demonstrado o curso inconcluso pela falta de duas disciplinas para a integraliza\u00e7\u00e3o do curr\u00edculo e a gradua\u00e7\u00e3o como bacharel em direito.<\/p>\n\n\n\n<p>Nessa investiga\u00e7\u00e3o a maior dificuldade que encontrei foi no MEC, onde uma vetusta servidora me demonstrou toda a sua indigna\u00e7\u00e3o: <em>Meu Deus! Que persegui\u00e7\u00e3o voc\u00eas est\u00e3o fazendo com esse professor! Ele est\u00e1 muito bem respaldado! Olhe, veja s\u00f3, o nome dele consta das \u201cdocumenta\u201d do MEC!<\/em>&nbsp; E me exibiu o que ela julgava demonstra\u00e7\u00e3o definitiva de que n\u00e3o havia fraude na documenta\u00e7\u00e3o do professor-doutor, por\u00e9m empalideceu e ficou muda quando apresentei o material que j\u00e1 havia coletado. E quando fechei meu convencimento com os colegas da Comiss\u00e3o, mediante provas realmente inequ\u00edvocas, apresentamos o relat\u00f3rio final \u00e0 Reitoria da UNIFAP.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o o cidad\u00e3o sumiu, deixando v\u00e1rias mulheres desconsoladas e para os professores do curso de direito a tarefa de reavaliar todos os alunos nas disciplinas por ele ministradas. Hoje n\u00e3o creio que isso teria sido necess\u00e1rio, e mais convicto fico quando observo que todos os alunos do curso de direito das turmas de 1991 e 1992 s\u00e3o hoje promotores, ju\u00edzes ou advogados de sucesso. Tempos depois correu a not\u00edcia de que teria sido preso, e solto em seguida em fun\u00e7\u00e3o da idade avan\u00e7ada. Teria tido um enfarto, com sequelas graves. Teria morrido tranquilo em uma cidade do interior do Rio de Janeiro. Nada confirmado. De verdadeiro mesmo ficou o cuidado que me dispensou o Prof. Leonil Amanaj\u00e1s, na \u00e9poca o dono do CEAP, que me chamou para me contar uma hist\u00f3ria que ele teria tomado conhecimento (mas tamb\u00e9m n\u00e3o tinha provas), ocorrida em outro estado, onde o cidad\u00e3o teria abandonado um apartamento com uma imensa pilha de caixas de pistolas Glock, vazias. Com um ar de preocupa\u00e7\u00e3o, ainda completou: <em>\u201ctalvez isso explique porque ele conseguiu fazer um doutorado no exterior sem ter completado seu curso superior, e isso no auge da ditadura militar<\/em>\u201d. Enfim, me deixou ciente do risco que eu estava correndo.<\/p>\n\n\n\n<p>A Comiss\u00e3o do PAD tamb\u00e9m concluiu pela inexist\u00eancia de responsabilidade da equipe da reitora anterior no caso, porquanto a documenta\u00e7\u00e3o apresentada n\u00e3o era inteiramente forjada (de fato, o cidad\u00e3o chegou a ser professor, em outras universidades, p\u00fablicas e particulares) e os selos do cart\u00f3rio nos documentos apresentados eram aut\u00eanticos, e o caso terminou ent\u00e3o sem maiores consequ\u00eancias, recebendo a solu\u00e7\u00e3o legal e adequada. No final, n\u00e3o serviu sequer para prender a aten\u00e7\u00e3o do movimento estudantil, que acabou sendo bem sucedido no seu desiderato de derrubar a reconhecidamente autorit\u00e1ria reitora, embora n\u00e3o lograsse sucesso quanto \u00e0 elei\u00e7\u00e3o para reitor, que ainda demoraria mais dez anos para ser realmente institucionalizada na UNIFAP.<\/p>\n\n\n\n<p>Enfim, esta \u00e9 a hist\u00f3ria do professor do curr\u00edculo turbinado, que cont\u00e9m uma s\u00e9rie de li\u00e7\u00f5es que n\u00e3o devemos olvidar, considerando, principalmente, que o cidad\u00e3o tinha sobrenome holand\u00eas, caracter\u00edsticas de europeu, e apar\u00eancia respeit\u00e1vel. Ser\u00e1 que, se tivesse um sobrenome e um tipo bem macapaense, teria sido tratado da mesma forma?<\/p>\n\n\n\n<p>Bom, o fato \u00e9 que ele era muito inteligente, tinha not\u00e1vel conhecimento jur\u00eddico, mas n\u00e3o agia de boa f\u00e9. Talvez sua mirabolante hist\u00f3ria de vida o tivesse conduzido \u00e0 cren\u00e7a de que poderia manipular as pessoas at\u00e9 o fim da vida. Enfim, cabe lembrar uma famosa frase de S\u00f3crates: <em>a mentira nunca vive o suficiente para envelhecer<\/em>. Afinal, \u201c<em>viver \u00e9 isso: ficar se equilibrando o tempo todo entre escolhas e consequ\u00eancias\u201d <\/em>(Sartre).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Wilson Carvalho Tomo contato pelos telejornais de mais um caso de profissional de n\u00edvel superior que consegue aqui exercer profiss\u00f5es de extrema responsabilidade t\u00e9cnica, sem comprovar a devida qualifica\u00e7\u00e3o ou registro. A primeira quest\u00e3o e que me leva a refletir \u00e9: por que algu\u00e9m faz isso? 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