{"id":976,"date":"2022-09-20T17:02:08","date_gmt":"2022-09-20T20:02:08","guid":{"rendered":"http:\/\/wilsoncarvalho.com.br\/?p=976"},"modified":"2022-09-20T17:02:10","modified_gmt":"2022-09-20T20:02:10","slug":"o-homem-que-tudo-explicava","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/wilsoncarvalho.com.br\/index.php\/2022\/09\/20\/o-homem-que-tudo-explicava\/","title":{"rendered":"<strong>O homem que tudo explicava<\/strong>"},"content":{"rendered":"\n<p>Jo\u00e3o Wilson Savino Carvalho<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Wilson Carvalho<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"602\" height=\"489\" src=\"https:\/\/wilsoncarvalho.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/image.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-977\" srcset=\"https:\/\/wilsoncarvalho.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/image.png 602w, https:\/\/wilsoncarvalho.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/image-300x244.png 300w\" sizes=\"(max-width: 602px) 100vw, 602px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Apesar de ser um sujeito conhecido pela sensatez, \u00e0s vezes ele se tornava mesmo um cara insuport\u00e1vel. N\u00e3o porque fosse exatamente um chato, inconveniente ou uma pessoa ruim, mas porque sempre tinha uma explica\u00e7\u00e3o definitiva para tudo. Tinha mania de explicar e acabava sofrendo muito com isso.<\/p>\n\n\n\n<p>O fato \u00e9 que ele tinha realmente muita experi\u00eancia de vida, era viajado e tinha trabalhado em muitos of\u00edcios, conhecido tanto os lugares como os bafejos da fortuna, e tanto os bons tempos como as desventuras, e de todas essas experi\u00eancias, havia colhido um dito, uma m\u00e1xima, que aplicava como uma reza capaz de solucionar todos os problemas da humanidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Se algu\u00e9m se mostrava triste porque seu time do cora\u00e7\u00e3o havia tomado uma goleada, ele prontamente explicava que essa era a beleza do futebol, que colocava esse esporte no pedestal do cora\u00e7\u00e3o das multid\u00f5es, que era o resultado imprevisto, vari\u00e1vel, dependente da sorte ou do lampejo de um g\u00eanio solit\u00e1rio, que tira for\u00e7as do \u00e2mago de seu ser para fazer a vit\u00f3ria de seu time fraco e capenga, produzindo um resultado inesperado. E por isso as pessoas lotavam os est\u00e1dios de futebol e n\u00e3o os gin\u00e1sios de basquete, porque os brasileiros amam o imponder\u00e1vel e por isso a nossa vida era assim, meio que ao sabor da sorte, e da\u00ed para passar a explicar o problema da falta de planejamento no Brasil era um pulo&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c0s vezes era mais direto. Bastava algu\u00e9m comentar como os pol\u00edticos est\u00e3o assaltando o pa\u00eds que ele come\u00e7ava:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; <em>Ah! \u00c9 como dizia E\u00e7a de Queiroz, os pol\u00edticos e as fraldas devem ser trocados periodicamente pela mesma raz\u00e3o! E, de prefer\u00eancia, em um prazo bem curto&#8230; E logo prosseguia no corol\u00e1rio dessas ideias: ali\u00e1s, acreditar que algu\u00e9m n\u00e3o vai roubar porque \u00e9 de sua natureza ser incorrupt\u00edvel, \u00e9 uma tremenda bobagem! Somos todos iguais, capazes de qualquer coisa, mas como a sociedade n\u00e3o pode se manter se todo mundo mete a m\u00e3o e ningu\u00e9m p\u00f5e nada, temos que vigiar uns aos outros, para podermos sobreviver civilizadamente&#8230; Outra bobagem \u00e9 pensar que uma pessoa vai deixar de meter a m\u00e3o no dinheiro p\u00fablico s\u00f3 porque ganha uma f\u00e1bula de sal\u00e1rio&#8230; As necessidades humanas s\u00e3o infinitas&#8230; O sujeito ganha uma f\u00e1bula, mas nunca \u00e9 suficiente, porque ele tem uma mulher, que quer mais e mais, filhos, que tem suas pr\u00f3prias aspira\u00e7\u00f5es, amantes para satisfazer os caprichos&#8230; E a\u00ed a roubalheira nunca tem fim&#8230; J\u00e1 falei pra voc\u00eas como a coisa funciona na China?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Mas era de sua natureza, isso. Sua mente funcionava naturalmente como um jogo de conhecimentos, um ficheiro vivo e din\u00e2mico de informa\u00e7\u00f5es que se reconfigurava em cada questionamento de uma nova informa\u00e7\u00e3o, s\u00f3 sossegando quando conseguisse incorporar a nova de uma forma explic\u00e1vel pelas antigas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Uma vez parou junto a um grupo de mec\u00e2nicos de ar intrigado diante de um motor que, em marcha lenta, fazia um barulho que lembrava o arfar de um casal de amantes. Por tr\u00eas ou quatro minutos fez a mesma express\u00e3o dos mec\u00e2nicos, e ent\u00e3o, num repente, come\u00e7ou a explicar:<\/p>\n\n\n\n<p><em>&#8211; \u00c9 o eixo, tem que estar com um pequeno empenamento&#8230; Sim, s\u00f3 pode ser isso, porque a sequ\u00eancia de explos\u00f5es nas c\u00e2maras de combust\u00e3o n\u00e3o se mant\u00e9m em um ritmo regular. \u00c9&#8230; O motor n\u00e3o perde for\u00e7a, n\u00e3o para&#8230; Ent\u00e3o deve ser o virabrequim que&#8230; <\/em>&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; <em>Mas&#8230; Quem \u00e9 o senhor? \u00c9 mec\u00e2nico?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Ficou indignado por que foi interrompido por uma pergunta que considerava absurda e totalmente descabida, j\u00e1 que questionava um conhecimento com base numa forma\u00e7\u00e3o em algum curso ou coisa parecida. <em>Formalismo! Sempre isso.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Durante muito tempo viveu razoavelmente feliz consigo mesmo, mas essas coisas o deixavam cada vez mais decepcionado. E ele que era uma pessoa alegre e comunicativa, foi se tornando amargo e introspectivo. Mas eis que um dia&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Ele viajava de barco pelo rio Amazonas, pr\u00f3ximo a Laranjal do Jari, no Amap\u00e1. O camarote em que ele estava era ex\u00edguo, mas tinha um beliche junto \u00e0 porta e um banheiro micro, que ele estava justamente utilizando naquele momento. Sentado no vaso, sentiu um tranco no barco, que imediatamente come\u00e7ou a girar levemente, levando ao desligamento do motor. Com isso o barco come\u00e7ou a balan\u00e7ar cada vez mais forte. O beliche rangeu com a inclina\u00e7\u00e3o do barco, como se fosse soltar-se a qualquer momento. Ele analisou a situa\u00e7\u00e3o e num \u00e1timo percebeu que o beliche poderia se deslocar e travar a porta, e concluiu que precisava lan\u00e7ar-se imediatamente na dire\u00e7\u00e3o da porta para sair da armadilha que se tornaria o camarote, caso o barco fosse a pique.<\/p>\n\n\n\n<p>Optou, entretanto, por primeiro limpar-se e vestir suas roupas, mas enquanto fazia isso, um balan\u00e7o maior soltou de vez o beliche que escorregou e travou a porta. Agora, se o barco fosse ao fundo, o explicador estaria condenado a uma morte horr\u00edvel. Claro, toda a sua vida passou como um foguete na sua mente.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas a sorte n\u00e3o o havia abandonado totalmente, e outro forte balan\u00e7o do barco levou o beliche de volta a sua posi\u00e7\u00e3o inicial. Foi o tempo suficiente para o explicador abrir a porta, e antes do balan\u00e7o seguinte, sair do camarote para o pandem\u00f4nio que havia se tornado o conv\u00e9s do barco, com pessoas gritando, outras rezando, e a tripula\u00e7\u00e3o pedindo calma que o problema logo seria resolvido.<\/p>\n\n\n\n<p>E quando o explicador olhou para o lado, deu com uma mocinha, de quinze ou dezesseis, enrolada unicamente em uma toalha, com seu salva-vidas perfeitamente abotoado, e com o bra\u00e7o tran\u00e7ado em uma haste da amurada, na posi\u00e7\u00e3o mais adequada para enfrentar uma eventual virada de barco e sua possibilidade de flutuar at\u00e9 a chegada do socorro.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; <em>Eu, hein! Sa\u00ed do jeito que deu&#8230; Minha vida em primeiro lugar&#8230; <\/em>Ela disse diretamente a ele quanto viu que ele a olhava admirado.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Uma garota, uma adolescente&#8230; Mas soube priorizar sua vida, pouco se importando em sair quase nua do banheiro&#8230; E eu? Porque fiz tamanha besteira? <\/em>Esse pensamento ricochetava na mente do explicador, e prosseguiu assim durante a maior parte da noite, quando chegou o socorro e o barco foi rebocado a um porto seguro, para ser reparado.<\/p>\n\n\n\n<p>A noite tinha sido apavorante, mas n\u00e3o foi o medo do perigo de uma viagem de barco que fez com que ele voltasse para sua cidade natal de avi\u00e3o, mas sim o medo dele pr\u00f3prio, deflagrado pela disson\u00e2ncia cognitiva que se instalou quando, ele, o mais racional de todos, agiu de forma profundamente irracional. <em>O certo teria sido sair com a bunda por limpar, mas n\u00e3o expor minha vida a um risco que eu j\u00e1 tinha identificado. Meu instinto de sobreviv\u00eancia apoiado em uma an\u00e1lise racional da situa\u00e7\u00e3o foi superado por um h\u00e1bito social irrelevante naquele momento de perigo. <\/em>Pensava ele o tempo todo.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda o perturbaria muito tempo essa quest\u00e3o, mas a sorte continuava ao seu lado, e ele, em uma tarde ociosa na orla da cidade, encontrou e reconheceu a garota do barco que quase naufragou. Aproximou-se dela com a maior naturalidade, j\u00e1 sabendo que tamb\u00e9m seria reconhecido.<\/p>\n\n\n\n<p><em>&#8211; Acho que voc\u00ea estava mais bonita vestida s\u00f3 de toalha e salva-vidas&#8230;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>&#8211; Ah! Eu, hein! Depois de ter crescido dentro de um barco, balan\u00e7ando no rio a vida toda, acha que eu ia morrer trancada num camarote? Isso acontece muito nesse rioz\u00e3o&#8230; <\/em>Ela respondia com a mesma naturalidade, como se fossem amigos de muito tempo.<\/p>\n\n\n\n<p>E eles conversaram muito, quase a tarde inteira. Ela era quase uma crian\u00e7a, tinha pouco estudo e era at\u00e9 meio desbocada, mas era divertida e via as coisas sempre pelo lado positivo. Na verdade, ela era exatamente a pessoa que ele precisava. E por isso passaram a se encontrar mais vezes. Ela gostava de tudo o que ele detestava: sorvete de rua, sanduiche maior que a boca&#8230; E ela ria muito das coisas que ele gostava. Mas, no final das contas, riam muito os dois. E a despeito de toda essa afinidade, ele n\u00e3o sentiu tanto quanto seria de esperar quando ela precisou voltar a viajar. Afinal, a vida dela era naquele barco.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas seu maior espanto seria a descoberta de que ela n\u00e3o sabia ler. Bom, pelo menos n\u00e3o como a maioria das pessoas leem. Ela, na verdade, conhecia os letreiros pelo formato, e n\u00e3o pela composi\u00e7\u00e3o sil\u00e1bica. E conhecia todas as letras e n\u00fameros. Parecia at\u00e9 que ela n\u00e3o lia porque ler n\u00e3o lhe despertava o interesse.<\/p>\n\n\n\n<p><em>&#8211; Meu Deus! Como \u00e9 que uma garota t\u00e3o inteligente n\u00e3o sabe ler?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>&#8211; Mas eu leio! Eu leio o mundo, e nisso sou muito melhor que voc\u00ea.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>&#8211; L\u00ea o mundo? Voc\u00ea l\u00ea o mundo! E como \u00e9 que pode ser isso?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>&#8211; Ah! Isso depende da forma como voc\u00ea v\u00ea a vida, do que voc\u00ea d\u00e1 import\u00e2ncia&#8230; Se der import\u00e2ncia para as coisas certas, vai realmente entender a vida&#8230; T\u00e1 vendo, l\u00e1 longe, do outro lado do rio? O contorno azulado das ilhas? V\u00ea aquele peda\u00e7o em tom mais claro? Isso significa que ali come\u00e7a um canal que separa duas ilhas&#8230; Voc\u00ea sabia disso?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>&#8211; N\u00e3o, n\u00e3o sabia&#8230; Mas tamb\u00e9m, voc\u00ea sabe disso porque \u00e9 ribeirinha, e eu n\u00e3o&#8230;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>&#8211; \u00c9? Ent\u00e3o olhe aquela castanholeira! Essa cidade era cheia delas e agora est\u00e3o se acabando por conta de uma planta parasita que vai matando a castanholeira aos poucos! Sabia disso?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>&#8211; N\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 minha \u00e1rea! Mas voc\u00ea sabe disso porque \u00e9 do interior&#8230;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>&#8211; Ah! N\u00e3o \u00e9 por isso n\u00e3o! \u00c9 porque eu sei ler o mundo e voc\u00ea n\u00e3o. Olha s\u00f3, voc\u00ea est\u00e1 preocupado porque daqui a pouco eu vou embora e talvez voc\u00ea n\u00e3o me veja nunca mais&#8230; E eu estou preocupada em aproveitar o m\u00e1ximo do meu tempo com voc\u00ea&#8230; Depois eu vou seguir a minha vida, vou viver outras coisas&#8230;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>&#8211; Sim, voc\u00ea \u00e9 jovem&#8230; N\u00e3o viu metade das coisas que eu j\u00e1 vivi.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>&#8211; \u00c9&#8230; Mas se eu agisse como voc\u00ea, eu seria velha sem sequer ter vivido&#8230;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Aquela \u00faltima frase da garota foi pra encerrar o di\u00e1logo. Ele agora a olhava com uma imensa admira\u00e7\u00e3o, quase envergonhado de t\u00ea-la criticado por n\u00e3o saber ler. Mas tinha consci\u00eancia da incr\u00edvel mudan\u00e7a que nele havia se operado a partir daquele di\u00e1logo. Uma esp\u00e9cie de serenidade o invadia, como a demonstrar o quanto ela tinha sido importante na vida dele. Ia embora, mas ia deixar muito dela com ele.<\/p>\n\n\n\n<p>Seria de esperar que o explicador voltasse a sua rotina de vida \u2013 trabalho, cinema, barzinho com os amigos&#8230; Mas n\u00e3o. A vida dele tinha sofrido um impacto com a presen\u00e7a da garota t\u00e3o bobinha, infantil mesmo para a idade dela, mas que era t\u00e3o eficaz na tarefa de ser feliz. \u00c9 que agora ele j\u00e1 n\u00e3o mais explicava tudo o tempo todo. Havia aprendido a ouvir, a aprender com os outros, havia aprendido o mais alto grau da aprendizagem. Havia aprendido a aprender.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jo\u00e3o Wilson Savino Carvalho Wilson Carvalho Apesar de ser um sujeito conhecido pela sensatez, \u00e0s vezes ele se tornava mesmo um cara insuport\u00e1vel. N\u00e3o porque fosse exatamente um chato, inconveniente ou uma pessoa ruim, mas porque sempre tinha uma explica\u00e7\u00e3o definitiva para tudo. Tinha mania de explicar e acabava sofrendo muito com isso. 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