﻿{"id":986,"date":"2023-01-04T18:31:41","date_gmt":"2023-01-04T21:31:41","guid":{"rendered":"http:\/\/wilsoncarvalho.com.br\/?p=986"},"modified":"2023-01-04T18:31:43","modified_gmt":"2023-01-04T21:31:43","slug":"a-matilha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/wilsoncarvalho.com.br\/index.php\/2023\/01\/04\/a-matilha\/","title":{"rendered":"A matilha"},"content":{"rendered":"\n<p>Por Malr\u00edcio Fran\u00e7a<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"454\" height=\"241\" src=\"https:\/\/wilsoncarvalho.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/A-matilha.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-987\" srcset=\"https:\/\/wilsoncarvalho.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/A-matilha.png 454w, https:\/\/wilsoncarvalho.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/A-matilha-300x159.png 300w\" sizes=\"(max-width: 454px) 100vw, 454px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Tempos atr\u00e1s, ao pedalar pelo centro da cidade, vi pela primeira vez a matilha. Ela caminhava, ou melhor, marchava, pelos arredores da pra\u00e7a c\u00edvica, e parecia at\u00e9 alegre e inofensiva, com seus membros barulhentos usando adere\u00e7os verdes e amarelos. Naquela \u00e9poca n\u00e3o eram tantos, mas depois chegaram a ultrapassar em todo o Brasil, a marca hist\u00f3rica de 50 milh\u00f5es. Com o tempo foram aumentando em n\u00famero e se apresentando cada vez mais confiantes e ferozes, pelos quatro cantos do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>O barulho ao qual me referi durou cerca de anos, e at\u00e9 meses atr\u00e1s ainda era poss\u00edvel de ser ouvido, j\u00e1 que a matilha, mesmo estando em um n\u00famero menor, continuava a se reunir e a mostrar o seu poder alegremente, o que era de surpreender, pois milhares deles morriam por falta de vacinas. Mas o que estava matando aos milhares n\u00e3o era a raiva, e isso se podia concluir pelo fato que eles sentiam avers\u00e3o pela cor vermelha, e n\u00e3o pela \u00e1gua, como acontece na hidrofobia.<\/p>\n\n\n\n<p>Alem da surpresa citada h\u00e1 pouco, a matilha, pelo seu tamanho e persist\u00eancia, provocava d\u00favidas que poderiam ser sintetizadas em quest\u00f5es como: por que, afinal, mesmo ap\u00f3s tanto sofrimento causado, tanto aos que queriam como aos que n\u00e3o queriam fazer parte dela, os componentes da matilha ainda continuavam obedecendo alegremente ao seu l\u00edder? Por que continuam marchando com o mesmo focinho empinado de antes, indo para l\u00e1 e para c\u00e1, carregando bandeiras do Brasil e lan\u00e7ando aos pedestres que passam um olhar arrogante, como se fossem c\u00e3es de ra\u00e7a, quando na verdade, eram vira-latas caramelos.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o que me incomoda n\u00e3o \u00e9 o barulho com que tentam intimidar os outros. Tampouco \u00e9 o fato de acharem superiores, de se acreditarem detentores de um saber hist\u00f3rico que todos os pobres mortais ignoram. Na verdade, o que me incomoda \u00e9 que para eles todos os que pensam e agem de forma diferente da deles merecem ataques ferozes e desmedidos, incab\u00edveis at\u00e9 para os irracionais, que s\u00f3 atacam movidos pela fome ou pelo instinto de defesa.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse comportamento, conta o fil\u00f3sofo Italiano Geovanni Reale (1931-2014) no seu livro chamado <em>Hist\u00f3ria da Filosofia\u2013 volume 6: de Nietzsche \u00e0 escola de Frankfurt <\/em>(2006), foi estudado pelo fil\u00f3sofo alem\u00e3o naturalizado americano Erich Fromm (1900-1980), que na obra intitulada <em>Medo \u00e0 Liberdade <\/em>(t\u00edtulo da tradu\u00e7\u00e3o brasileira)<strong>, <\/strong>publicada no ano de 1941, explicou acerca da import\u00e2ncia de se afastar dos grupos, passando assim a pensar por conta pr\u00f3pria e a romper com aquilo que ele chamou de conformismo greg\u00e1rio, ou seja, com o ato de se aceitar, sem nenhuma obje\u00e7\u00e3o, as normas impostas ao grupo, que se organiza em forma de bando ou como no em nosso exemplo, em forma de matilha.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, esse afastamento citado a pouco, tem um lado ruim e muitas vezes influenciador de decis\u00f5es, porque traz consigo inevitavelmente o peso da responsabilidade pelos pr\u00f3prios atos e tamb\u00e9m da solid\u00e3o, que devemos aprender a lidar se quisermos ser verdadeiramente livres. Claro que muitos dos membros da matilha a qual venho me referindo acreditam ser livres. Mas como poderiam ser realmente livres, se pensam e agem de forma sempre igual e conforme ao pensamento de um s\u00f3?<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo Erich Fromm, liberdade \u00e9 pensar autonomamente e agir conforme suas pr\u00f3prias decis\u00f5es. Em sua obra intitulada <em>Desobedi\u00eancia como problema psicol\u00f3gico e moral<\/em>, de 1963, mostra que ser livre s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel atrav\u00e9s de atos de desobedi\u00eancia, que \u00e9 o que d\u00e1 in\u00edcio \u00e0 hist\u00f3ria humana, e que \u00e9 contr\u00e1rio as regras da matilha, sendo a principal delas a disciplina.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim sendo, n\u00e3o vejo um futuro livre para os membros dessa matilha, caso prefiram continuar sendo obedientes a um l\u00edder que os deixou tomando chuva por muitos dias em frente aos quart\u00e9is do ex\u00e9rcito espalhados pelo pa\u00eds, fazendo-os esperar pela sua volta, assim como o Hachiko, do filme \u201cSempre ao seu lado\u201d (2009). A coincid\u00eancia \u00e9 que nos dois casos h\u00e1 um personagem fict\u00edcio que n\u00e3o voltar\u00e1, sendo que, em um deles, o personagem \u00e9 um professor universit\u00e1rio, no outro n\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Se eu pudesse dizer algo para os membros dessa matilha, ap\u00f3s o que venho dizendo com base no pensamento de Erich Fromm, eu diria \u201c<em>voltem para a condi\u00e7\u00e3o humana, mesmo que lhes pese tal decis\u00e3o. Desobede\u00e7am, saiam da matilha, s\u00f3 assim voc\u00eas ser\u00e3o verdadeiramente livres!\u201d.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Malr\u00edcio Fran\u00e7a Tempos atr\u00e1s, ao pedalar pelo centro da cidade, vi pela primeira vez a matilha. Ela caminhava, ou melhor, marchava, pelos arredores da pra\u00e7a c\u00edvica, e parecia at\u00e9 alegre e inofensiva, com seus membros barulhentos usando adere\u00e7os verdes e amarelos. 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