﻿{"id":995,"date":"2023-05-26T11:28:13","date_gmt":"2023-05-26T14:28:13","guid":{"rendered":"http:\/\/wilsoncarvalho.com.br\/?p=995"},"modified":"2023-05-26T11:28:14","modified_gmt":"2023-05-26T14:28:14","slug":"a-arte-da-arte-gotas-de-filosofia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/wilsoncarvalho.com.br\/index.php\/2023\/05\/26\/a-arte-da-arte-gotas-de-filosofia\/","title":{"rendered":"A arte da Arte &#8211; Gotas de Filosofia"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"901\" height=\"497\" src=\"https:\/\/wilsoncarvalho.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/A-arte-da-arte.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-996\" srcset=\"https:\/\/wilsoncarvalho.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/A-arte-da-arte.png 901w, https:\/\/wilsoncarvalho.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/A-arte-da-arte-300x165.png 300w, https:\/\/wilsoncarvalho.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/A-arte-da-arte-768x424.png 768w\" sizes=\"(max-width: 901px) 100vw, 901px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>(Capa: obra do artista pl\u00e1stico Jos\u00e9 Alberto Tostes\/UNIFAP)<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>A arte da arte<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Jo\u00e3o Wilson Savino Carvalho<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Gosto de me repetir dizendo que considero igualmente valiosas cinco formas de interpreta\u00e7\u00e3o da realidade, a saber: o senso comum e o bom senso, a religi\u00e3o, a arte, a filosofia e as ci\u00eancias, porque fa\u00e7o quest\u00e3o de enfatizar a necessidade de evitar o perigo representado pelo orgulho intelectual (ou arrog\u00e2ncia) que toma conta do pensamento de quem acredita piamente que sua forma de interpreta\u00e7\u00e3o da realidade \u00e9 a perfeita e a \u00fanica v\u00e1lida. O seja, aquele que se acredita um pensador, mas, na verdade, n\u00e3o \u00e9 sequer um ide\u00f3logo, mas sim um seguidor de uma ideologia disfar\u00e7ada, e eu, junto com meus mestres Benedito Nunes (\u201cO dorso do tigre\u201d, 1969 \u2013 O sentido ontol\u00f3gico da arte) e Mota Pe\u00e7anha (\u201cCultura como ruptura\u201d, 1987), desconfio profundamente de todos os monismos.<\/p>\n\n\n\n<p>Coloco o senso comum junto com o bom senso por que, embora distintos, s\u00e3o bem pr\u00f3ximos em suas fontes, que s\u00e3o a observa\u00e7\u00e3o cotidiana e a aprendizagem social da vida, e por isso s\u00e3o impregnados pela ideologia dominante numa dada sociedade. A religi\u00e3o, embora tenha como fonte os livros sagrados e como crit\u00e9rio de verdade a f\u00e9, quando aut\u00eantica, n\u00e3o deve ser desprezada por conta dos valores de respeito que pode incutir em cada cidad\u00e3o. A arte, para alguns (dos quais discordo), n\u00e3o \u00e9 verdadeiramente uma forma de interpretar a realidade, por que tem como fonte a perspectiva individual da vida e depende do talento do artista e da sensibilidade do apreciador.<\/p>\n\n\n\n<p>A Filosofia e as ci\u00eancias s\u00e3o conhecimentos epist\u00eamicos (aqueles constru\u00eddos sistem\u00e1tica e metodicamente, buscando as causas), e diferem na forma da abordagem da realidade: enquanto Filosofia busca as causas \u00faltimas ou primeiras, visando um conhecimento abrangente relacionado ao sentido de tudo o que existe (o ser), as ci\u00eancias buscam as causas imediatas dos fen\u00f4menos, focando em setores determinados da realidade. Ainda que ambas sejam pautadas em uma an\u00e1lise cr\u00edtica da realidade, n\u00e3o est\u00e3o imunes \u00e0 ideologia porquanto obra do homem, que \u00e9 um ser social e historicamente situado.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, se \u00e9 assim, porque a arte, nas ditaduras ferozes, \u00e9 t\u00e3o (ou at\u00e9 mais) perseguida quanto \u00e0s formas epist\u00eamicas de interpreta\u00e7\u00e3o da realidade?<\/p>\n\n\n\n<p>Em uma vis\u00e3o panor\u00e2mica lembrar\u00edamos rapidamente os rituais medievais da queima de livros proscritos pela igreja ou a persegui\u00e7\u00e3o dos nazistas aos escritores classificados como \u201cinimigos do povo alem\u00e3o\u201d porque suas obras divergiam do pensamento hitlerista. Expurgos de escritores e queima ritual de seus livros em pra\u00e7a p\u00fablica favorecem a unanimidade que sempre garantiu as maiores atrocidades cometidas pelas massas de fan\u00e1ticos ao longo da hist\u00f3ria da humanidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Da mesma forma que \u00e9 feita com os cientistas e fil\u00f3sofos (e tamb\u00e9m com religiosos, dependendo do caso), essa persegui\u00e7\u00e3o se d\u00e1 seletivamente tamb\u00e9m com a arte, em especial com a literatura, que para os ditadores e l\u00edderes carism\u00e1ticos totalitaristas parece ser mais perigosa que os fundamentados artigos cient\u00edficos ou as eruditas reflex\u00f5es filos\u00f3ficas.<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez essa seja uma primeira explica\u00e7\u00e3o: a literatura tem um alcance incomparavelmente maior que a produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica ou filos\u00f3fica, geralmente restrita a c\u00edrculos intelectuais insignificantes em termos de capacidade de modifica\u00e7\u00e3o de atitude no n\u00edvel do senso comum. N\u00e3o resta d\u00favida que um cidad\u00e3o comum se sensibilizar\u00e1 muito mais com o problema da desigualdade social assistindo uma obra cinematogr\u00e1fica ou teatral de arte engajada do que pela leitura de em uma publica\u00e7\u00e3o cient\u00edfica ou filos\u00f3fica. A literatura, quando envolve e atinge a pessoa por uma via inef\u00e1vel, fica para todo o sempre.<\/p>\n\n\n\n<p>Coloco o meu caso como exemplo, no qual a avers\u00e3o que tenho de autoritaristas passou a fazer parte de minha forma de ser quando, ainda adolescente li \u201cO triste fim de Policarpo Quaresma\u201d, de Lima Barreto. H\u00e1 nele algo de similar \u00e0 forma como Erich Fromm explica o problema do autoritarismo em seu \u201cMedo a Liberdade\u201d, mostrando as duas faces do fen\u00f4meno, e por conta disso tenho esse livro como a melhor an\u00e1lise cr\u00edtica psicossocial do autoritarismo levando as massas a atitudes absurdas.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas hoje, para cumprir seu importante papel de cr\u00edtica social, a literatura enfrenta duas circunst\u00e2ncias que talvez tenham ra\u00edzes no mesmo problema. A primeira delas \u00e9 a onda de revisionismo liter\u00e1rio que desconsidera o contexto em que a obra liter\u00e1ria foi escrita, e surfando na onda do discurso f\u00e1cil que chama aten\u00e7\u00e3o dos holofotes, passa como um rolo compressor sobre respeit\u00e1veis escritores que contribu\u00edram enormemente para o avan\u00e7o da compreens\u00e3o sobre problemas sociais complexos como o racismo estrutural ou as quest\u00f5es de g\u00eanero, em um enorme desservi\u00e7o \u00e0 sociedade, escamoteando o essencial, apenas com o objetivo de atrair visibilidade e afagar o pr\u00f3prio ego.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando li Lima Barreto e tomei contato com seu personagem que se ressentia da falta de rever\u00eancia da sociedade com o seu instrumento musical, e que lamentava que uma pessoa talentosa que come\u00e7ava a dar notoriedade ao instrumento fosse \u201cum preto\u201d, embora eu fosse um adolescente numa \u00e9poca que nem se falava em racismo estrutural, n\u00e3o tive nenhuma dificuldade de entender que o autor estava me mostrando as nuances do racismo oculto nos costumes, nas falas do nosso cotidiano, e me levando a uma an\u00e1lise do meu modo social de ser. E hoje, simplesmente apagando falas e di\u00e1logos de personagens t\u00edpicos em romances de \u00e9poca, por serem consideradas racistas, apenas estaremos convencendo os leitores do futuro que nessa \u00e9poca o racismo nem existia. Quando se diz que um escritor \u00e9 testemunha de sua \u00e9poca, significa reconhecer que ele conseguiu registrar esse esp\u00edrito. Ainda que seja doloroso, ele deve permanecer registrado, como direito dos estudantes do futuro em saber como era realmente a cultura dessa \u00e9poca. Fora isso, \u00e9 apenas uma bela e in\u00fatil farsa.<\/p>\n\n\n\n<p>A segunda circunst\u00e2ncia que quero aqui assinalar \u00e9 o imediatismo e a superficialidade das redes sociais, onde um texto um pouco maior ou mais denso recebe logo, como primeiro coment\u00e1rio, feito por algu\u00e9m que se acha muito engra\u00e7ado, \u00e9 \u201cquando virar filme eu assisto\u201d, numa refer\u00eancia ao pensamento comodista de que um filme \u00e9 capaz de substituir um bom livro. Talvez seja, se o objetivo for o de mostrar uma erudi\u00e7\u00e3o que n\u00e3o existe, e n\u00e3o o de imergir em todo um universo que \u00e9 um cl\u00e1ssico da literatura.<\/p>\n\n\n\n<p>Entretanto, as redes sociais ainda permitem que voc\u00ea, em poucas palavras, desperte a curiosidade para grandes temas abordados em obras liter\u00e1rias, e esse poder das redes n\u00e3o pode ser desprezado por quem ama a literatura. Evidentemente, se acaso um pa\u00eds ingressa em um regime autoritarista, qualquer que seja sua lateralidade, nele as redes sociais tamb\u00e9m ser\u00e3o vigiadas, e consequentemente a literatura perseguida tamb\u00e9m ser\u00e1 bloqueada.<\/p>\n\n\n\n<p>Bom, mas a literatura \u00e9 arte, e a arte, nesse aspecto, \u00e9 mais esperta que a filosofia e a ci\u00eancia. Lembram-se do exemplo anterior, o livro do Lima Barreto? Pois ent\u00e3o, ele apareceu como leitura obrigat\u00f3ria de universidades em plena d\u00e9cada de setenta, no auge do autoritarismo civil-militar. Para os censores o romance deveria passar a ideia do conformismo. Entretanto, para os jovens, passou a avers\u00e3o a qualquer tipo de autoritarismo. Esse \u00e9 o poder e a m\u00e1gica da arte, que n\u00e3o leva esse nome \u00e0 toa.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(Capa: obra do artista pl\u00e1stico Jos\u00e9 Alberto Tostes\/UNIFAP) A arte da arte Jo\u00e3o Wilson Savino Carvalho Gosto de me repetir dizendo que considero igualmente valiosas cinco formas de interpreta\u00e7\u00e3o da realidade, a saber: o senso comum e o bom senso, a religi\u00e3o, a arte, a filosofia e as ci\u00eancias, porque fa\u00e7o quest\u00e3o de enfatizar a [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-995","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-sem-categoria"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/wilsoncarvalho.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/995"}],"collection":[{"href":"https:\/\/wilsoncarvalho.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/wilsoncarvalho.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/wilsoncarvalho.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/wilsoncarvalho.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=995"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/wilsoncarvalho.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/995\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":997,"href":"https:\/\/wilsoncarvalho.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/995\/revisions\/997"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/wilsoncarvalho.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=995"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/wilsoncarvalho.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=995"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/wilsoncarvalho.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=995"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}