Comunicação proferida pelo Prof. Dr. João Wilson Savino Carvalho (UNIFAP), em 31 de julho de 2014 -14h30, Café Literário – Clube de Autores, Circuito Off Flip das Letras(Rj)/Abeporá das Palavras(AP), 12º Festa Internacional do Livro de Paraty – 31 de julho a 3 de agosto de 2014, em Paraty/RJ.

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Introdução:

O fundamento desta Comunicação é o Projeto de Pesquisa e Extensão “Aprendendo Filosofia com a Literatura Regional”, desenvolvido pelo autor na Universidade Federal do Amapá, com base na experiência de 10 anos de magistério de Filosofia no ensino médio, no antigo Instituto de Educação do Amapá, com apoio teórico no pensamento de Paulo Freire (2001) – a leitura da palavra como leitura do mundo; Hans Geor Gadamer (1995) – a Filosofia como hermenêutica do sentido e a Educação como um processo de criação de novas maneiras de compreender, de agir e de dialogar;  Mathew Lipman (1994) – a necessidade de construção de uma mentalidade investigativa e filosófica pela exploração dos aspectos éticos e estéticos da literatura; e Maria Cecília Mynaio (1993) – a hermenêutica-dialética como linha metodológica que entende a metodologia como parte central na teorização, posto que intrínseca à visão de mundo veiculada na teoria, onde o método é o próprio processo de desenvolvimento das coisas, é o cerne do conteúdo enquanto faz a relação dialética entre pensamento e existência.

Apesar desse referencial teórico, importa firmar aqui que o objetivo de entender o ensino de Filosofia a partir da literatura regional do Amapá, e não inverso, e por isso as conclusões do discurso serão estabelecidas a partir das respostas a três questões interligadas teoricamente: o que é Filosofia? É possível ensinar Filosofia? Por que a literatura regional?

1. A Filosofia.

Tomando a definição mais elementar e geral da Filosofia, que está inscrita no termo que vem suportando o significado no pensamento ocidental há milênios, de busca permanente de conhecimento sobre tudo o que existe (o ser), motivada pela necessidade de entender o mundo e as coisas, inerente ao processo de humanização, feita por meio do processo especulativo (método reflexivo-crítico), encontraríamos logo interessantes pontos de contato com a Arte, em entre as artes, em especial, com a Literatura, na medida em que ambas são formas de interpretação da realidade motivadas pela exigência imperiosa que o ser humano tem de sentido, finalidade, ou, em uma expressão mais incisiva, de se humanizar cada vez mais em processo permanente e histórico.

Entendida a Filosofia como busca especulativa e radical sobre o sentido do ser, permanente e constante ao longo da história da humanidade, fatal é a implicação com o processo de socialização e, consequentemente, com a Educação. Resume-se esse argumento no fato de que verdadeira Filosofia não existe em abstrato, mas tão somente inserida em uma relação dialética com o social (inter-relação Filosofia – Educação – Sociedade), de múltiplas determinações.

De fato, se, por um lado, a classe dominante na sociedade é que estabelece que tipo de educação deva ser aplicada as gerações mais jovens, e no processo educativo formal (mas também no informal) se define o entendimento do que é Filosofia, sendo a Filosofia, em essência, um conhecimento radicalmente crítico, sempre poderá se apresentar como elemento dissonante e rebelde, ou intempestivo, como se refere Jules Deleuze (1992), desvendando a alienação e explicando teoricamente o mundo, estabelecendo (por que não?) a utopia.

É bem verdade que na mais das vezes a Filosofia é apresentada nas escolas como uma espécie de saber místico, abstrato, árido e sem sentido, próprio para o diletantismo dos intelectuais, dos eruditos (que não são filósofos), ou seja, como uma anti-filosofia, por que não apresenta suas características fundamentais de saber abrangente, radical e crítico, que só faz sentido na sociedade, em qualquer época, em um enfrentamento permanente com a ideologia dominante. É comum, por isso, que se naturalize como inovadora a ideia de que não se ensina Filosofia, mas tão somente História da Filosofia, de onde o aluno poderá desenvolver seus posicionamentos filosóficos.

Na verdade, não é bem assim. Trata-se de ensinar a filosofar, e a História da Filosofia, se apresentada ao aluno sem a conexão de sentido com o processo social e histórico (como soe acontecer), resulta no velho ensino de filosofia, no qual a atenção do aluno era mantida por meio de mecanismos de motivação extrínseca, perdendo-se um elemento essencial da Filosofia, que, como já se disse, aparece na sua própria denominação de “amor ao saber”.

2. A Literatura Regional.

A literatura é a arte da palavra (bela), e que, entre todas as artes, é a que mais se aproxima da Filosofia, por que constitui, de toda sorte, um discurso sobre o mundo e a vida. Assim, embora a Filosofia se apresente como um discurso pautado em um método (especulativo ou reflexivo-crítico), e tenha como critério de verdade a coerência lógica (positivismos) e/ou as consequências sociais e existenciais (filosofias histórico-críticas), enquanto que a arte constitui um discurso que tem como base o talento do artista e a sensibilidade do apreciador, e que por isso aparentam certo distanciamento teórico, o fato é que arte é também uma relação de conhecimento enquanto forma de interpretação da realidade, e mais, que acontece num processo de comunicação empática e altamente eficaz, onde a vontade tem papel fundamental.

O que chamamos aqui de literatura regional, no caso específico deste estudo, é a produção intelectual falada ou escrita, sobre qualquer tema literário, feita por amapaenses (logo, carregando nossas formas próprias e singulares de ver o mundo e estabelecer sentidos), ou sobre o Amapá e sua gente. De forma geral podemos dizer que a literatura regional é aquela que expressa o modo de ser do povo do lugar, e constitui parte da identidade desse povo.

3. A Aplicação na Sala de Aula.

Assim entendidos a Filosofia, a Educação e a Literatura Regional, inter-relacionados como uma totalidade dialética, fácil se apresenta o verdadeiro sentido de substituir o “ensino de Filosofia” pelo “ensinar a filosofar”, a partir da aplicação da literatura regional na sala de aula de Filosofia, em três níveis de profundidade de atuação do professor com o conteúdo e com o material didático (textos literários regionais):

1) A literatura com mote para a reflexão filosófica. Um exemplo no uso da crônica “O Espírito de Macapá”, de Wilson Carvalho (BISPO, 2010. Vol III; pag. 82), onde a noção filosófica de “espírito” pode ser discutida a partir do texto, como preâmbulo para a explicação do idealismo e o historicismo hegeliano, ou para a explicação do culturalismo no contexto da oposição ontológica materialismo x idealismo na filosofia ocidental. Na mesma linha: “Meu Rio é Minha Escola”, de Carla Nobre (BISPO, 2010. Vol I, pag. 76).

2) As questões da Filosofia na perspectiva da literatura. Um exemplo no texto “Pequeno Poema de Incredulidade”, de Paulo de Tarso (BISPO, 2010. Vol IV; pag. 106):

“Então me sentarei sozinho e talvez me detenha por momentos a contemplar os detalhes da parede: sombras, teias de aranha, uma rachadura, como se essas visões me conduzissem ao infinito das coisas finitas”.

Da questão da felicidade pessoal a ser trabalhada no ensino fundamental à questão da finitude e da temporalidade humana no pensamento de Heiddeger (2005), a ser trabalhado em um curso de licenciatura em Filosofia, o poema (completo) de Paulo de Tarso é perfeito. Na mesma linha: “Paisagem Antiga”, de Alcinéa Cavalcante (MESQUITA, 2012; pag. 16), ou “Esboço de Uma Teoria da Alma Humana”, de Sânzia Fernandes (BISPO, 2010. Vol I; pag. 43)

3) A reflexão filosófica sobre o texto literário. Um exemplo no episódio do “Engasga”, que aparece no romance de Maria Ester Pena Carvalho, onde os conceitos de alienação e ideologia podem ser discutidos em profundidade, com uma demonstração verossímil (embora se trate de ficção), de como a mitologia regional pode ser utilizada para plasmar significados absurdos numa sociedade fechada, sem discussão ou coerência lógica. Outro exemplo de grande fertilidade para o trabalho em sala de aula, nesse sentido, é o conto de Fernando Canto (BISPO, 2010. Vol II, pag. 36), Brasa Balançante (Um Conto do Tempo da Guerrilha).

Conclusão:

A literatura como um todo, mas especialmente a literatura regional, se apresenta não apenas como um rico material para a reflexão filosófica em sala de aula, principalmente pelos significados relativos identidade e a formação cultural do lugar, abordados literariamente por pessoas que conseguem “ver” esses significados por uma perspectiva divergente, mas também por constituir uma forma de abordagem transdisciplinar de temas extremamente caros tanto à Filosofia como à literatura, como a felicidade, os valores ético-morais, a justiça formal (ou injustiça), ou a desigualdade social.

Bibliografia:

BISPO, Manoel (Org.). Coletânea de Poetas, Contistas e Cronistas do Meio do Mundo – Projeto Samaúma da Literatura Amapaense. Vol. I (Contos). Vol. II (Poesias). Vol. III (Crônicas). Macapá : Ed. JM, 2010.

CARVALHO, J. W. S. Temas Básicos em Filosofia. Macapá, UNIFAP : 1993.

CARVALHO, Maria Ester Pena. As aventuras do professor Pierre na terra tucuju”. Paraty/Rj : Selo Off Flip, 2013.

DELEUZE, Giles & GUATARI, Felix. O que é Filosofia. Rio de Janeiro : Ed. 34, 1992.

FREIRE, Paulo. Ação Cultural para a Liberdade e outros Escritos. 9.ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2001.

HABERMAS, J. Dialética e Hermenêutica. Porto Alegre, Ed. LPM, 1987.

KOHAN, Walter Omar, LEAL, Bernardina e RBEIRO, Álvaro (Org.). Filosofia na Escola Pública. Petrópolis : Vozes, 2000.

LIPMAN, Mathew. A Filosofia na Sala de Aula. São Paulo : Nova Alexandria, 1994.

MESQUITA, Cleia; BAIA, Fernanda e ALVES, Mara (Org.). Poesia na Boca da Noite. São Leopoldo : Oikos, 2012.

MINAYO, M. C. de S. O Desafio do Conhecimento; pesquisa qualitativa em saúde. São Paulo: Hucitec‑Abrasco, 1993.

PORTELA, Eduardo – Literatura e Realidade Nacional. Rio de Janeiro : Tempo Brasileiro, 1971.

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