A Formação do Sociopata.

Crônica de João Wilson Savino Carvalho selecionada no XII CLIPP – Concurso Literário de Presidente Prudente.

Sempre acreditei que as pessoas vivem de esquemas comportamentais. Esses esquemas se formam ao longo da vida, geralmente na adolescência, e eles vêm de filmes que marcaram, de situações quotidianas que se repetem e são resolvidas por uma forma também repetitiva, enfim, são esquemas comportamentais que passam a fazer parte da vida mínima de uma pessoa. Por exemplo, um filme americano da época do faroeste em que o herói começa como um famoso pistoleiro que se tornou um “bebum” por tragédias pessoais, e que passa o filme inteiro sendo ridicularizado, mas, ao final, em uma situação extrema, para de beber, recobra a coragem e a rapidez no gatilho e liquida todos os bandidos. Quem é apreciador de faroestes americanos dos anos sessenta sabe como esse é esquema é repetitivo. E quantas pessoas que foram jovens nos anos sessenta e que plasmaram muitas de suas reações por esse esquema, e passaram a vida deixando as situações se tornarem extremas, para só então reagir e dar o melhor de si.

Outros esquemas bem mais complexos são formados em situações igualmente complexas, embora também repetitivas. É o caso da sociopatia, uma “doença” da alma que se caracteriza pela incapacidade de introjeção de valores morais e que antes era dita psicopatia, palavra do vocabulário especializado que acabou sedimentada na linguagem comum. Aliás, a mudança para “sociopatia” tem exatamente o sentido de firmar que o motivo (ou a “culpa”) na dificuldade ou impossibilidade de uma determinada pessoa em introjetar valores morais é da sociedade. E como a família é a célula mater do convívio social, provavelmente, a principal razão.

Até aqui tudo bem. O problema é que, para que uma família determine a impossibilidade de introjeção de valores morais de um de seus membros a um nível patológico, é preciso que seja essa uma família “doente”. E quem sabe, uma célula de uma sociedade doente.

Uma das figuras mais comuns das novelas brasileiras é a do garotinho (ou garotinha) rico e mimado e que se torna extremamente cruel e desalmado por ser levado a acreditar que, para ele, tudo é possível (e não é?). Se um dia, atormenta a babá e todo mundo acha isso engraçado, no outro, junto com seus amiguinhos, toca fogo no vira-latas que foi atraído para o interior da garagem da mansão, e seus pais agem como se aquilo fosse um treinamento para a sua vida de futuro empresário. Adiante, em sua “turminha” de iguais, se por tédio começam a tocar fogo em mendigos, sempre têm uma justificativa: qual a “utilidade” desses seres para a sociedade? E o castigo? O mesmo de sempre: perderão alguns de seus imensos privilégios.

Nas novelas brasileiras é também muito comum a presença da família patologicamente contraditória, um clichê muito significativo e que se desdobra e vários outros inter-relacionados. Todos são muito religiosos, mas desumanos em suas relações sociais. Defendem a ecologia, mas jogam o esgoto no córrego, praticam o consumo irresponsável e esnobam os outros com seu poder econômico. O pai tem suas amantes e todos sabem, mas ninguém fala. O adolescente faz sua iniciação sexual com as empregadas domésticas que são imediatamente despedidas e outras situações similares. Tudo é muito conveniente entre aqueles que não perdem uma missa, mas saem da igreja pisando nas mãos dos pedintes.

Tudo isso devidamente acobertado por uma legislação absurdamente permissiva, extremamente adequada para garantir a impunidade dos garotinhos ricos incendiários ou espancadores, e a utilização dos menores pobres como aviõezinhos do narcotráfico. Afinal, essa é a doença do capitalismo periférico, ou da corruptocracia.

Mas onde está a fronteira entre uma típica família rica do capitalismo periférico e o clima patológico da formação do sociopata? Bom, o capitalismo periférico, por si, já é um sistema patológico, à medida que representa uma elite restrita que explora e mantém iludida com migalhas uma maioria masoquista, e tudo em prol de outra sociedade, a metrópole, que é um exemplo de tudo o que a sociedade periférica não é.

Entretanto, nem todas as famílias pequeno-burguesas das sociedades periféricas constituem climas familiares patológicos. Há famílias burguesas que produzem empresários que expandem a fortuna da família, médicos de renome, cientistas e intelectuais que aumentam a compreensão teórica sobre as mazelas sociais. Estas famílias estão enquadradas nos três critérios básicos que a sociedade aceita para aplicar o rótulo de “normalidade”: fazem o que a média das famílias faz (critério estatístico); não agridem a sociedade com suas ações (critério da harmonia); vivem razoavelmente felizes, principalmente quando dentro de sua bolha social (critério do padrão mínimo de felicidade pessoal).

Então qual a diferença dessas famílias tipicamente burguesas, para aquelas onde se dá uma formação patológica? Por que em algumas famílias, na mesma sociedade, com as mesmas características, surge um psicopata?

A grande diferença é a contradição interna, com o produto básico da unidade familiar, a prole que substituirá os pais, representando um perigo para a família burguesa ou para o sistema. Ou seja, o que realmente não é admissível é a família autodestrutiva. Filhos insensíveis e que assassinam os pais para antecipar a herança não são admitidos, e mesmo que as penas sejam ridículas, representam, de toda sorte, uma sanção social.

Mas, e se o garoto cresce ouvindo pai gabar-se de como fraudou o imposto de renda ou deu o golpe nos sócios da empresa, ou com a mãe discorrendo sobre a falsidade de suas amigas, que em seguida recebe com um imenso sorriso e a as mais variadas cortesias? Como será possível a esse garoto desenvolver ou estabelecer um sistema coerente de valores? Muito simples. Ele desenvolverá um sistema onde errado então não é quem desrespeita a lei ou solapa o direito de outrem, mas sim quem é pego fazendo isso. E ai a sociedade fica estarrecida com pérolas produzidas por sociopatas desse tipo:

– Por que vocês tocaram fogo no índio?

– Ah! A gente pensava que era só um mendigo…

Pronto, está devidamente formado o sociopata. E a aí a grande questão: há retorno, tratamento, terapia de grupo ou qualquer ação positiva na mudança da situação? A resposta é não. E isso porque a família, a única instância da sociedade que poderia fazê-lo, não o reconhece como doente. E tampouco se reconhece como doente.

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